BLOGS: Tiago+++ Heterônimo Quintana

forte

Segunda-feira , 29 de Junho

 

"O caminho da paz é a espreção do puro sentimento"

A.D...

 

 

 

 e x p r e s s e - s e

 

 l i v r e m e n t e

 

E X P R R E S S E - S E

 

L I V R E M E N T E

 

 


Escrito por Henrique Oliveira às 21h21 Comentários Envie

paxaro

Terça-feira , 23 de Junho

 

aNdo me seNtiNdo um estraNho No NiNho

e Nesse seNtir coNfortavelmeNte me aNiNho

aNdo me seNtiNdo meio estraNho soziNh


Escrito por Henrique Oliveira às 22h22 Comentários Envie

peão

Domingo , 21 de Junho

 

Eu tenho me questionado profundamente nos últimos tempos, sobretudo em relação ao que eu gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos, dez anos. Escrevendo agora me questiono sobre o "estar fazendo" que acabei de usar, maldito gerúndio que condeno e nunca uso, mas acho que aqui não caberia outra forma verbal para me expressar, como o "fazer" simplesmente, pois seria (ou será) ato continuado. Mas aqui ele se faz necessário. Quero estar tranquilo muito em breve, sem trabalhar tanto e me sentindo respeitado plenamente. Não é querer demais.

 

Fazendo uma análise das coisas que já fiz nessa Vida, olhando pro cara que fui no passado, me tranquilizo sobretudo pela simplicidade com que aprendi a conduzir as minhas relações pessoais, em especial as relações envolvidas com trabalho e com dinheiro. Durante muito tempo, a maior parte da minha Vida adulta talvez, valorizei coisas que hoje não importam mais. Conquistei uma certa estabilidade financeira, hoje sem nada de luxos, mas o mais importante é que aprendi a viver com poucos recursos. Meu sabático peregrino me trouxe esse aprendizado precioso.

 

Em relação ao material gosto de viver bem, com conforto, mas me questiono sobre ostentação. Gosto de comer bem, mas entendo por comer bem comer com qualidade, de forma saudável. Gosto de me vestir bem? Não sei... Gosto de estar simples e o básico me cai bem, mas tem gente querida que gosta de me medir e dizer que preciso renovar meu guarda-roupas... Para trabalhar uso roupas boas, da época em que sanava minhas carências em shopping center, mas no demais um jeans, tênis e camiseta me fazem feliz. Teve um querido uma vez que me disse que eu não arranjava namorado por ser básico demais - disse que eu precisava me preocupar mais com a aparência. Será? Eu tenho as minhas angústias sim, mas, conhecendo-o tão bem quanto conheço, posso dizer que as suas angústias são até maiores que as minhas - principalmente na hora de pagar os carnês todos... Carnê nada que ele é chique, é a porra do cartão de crédito que ele vive estourando...

 

Precisei conhecer os dois extremos do lidar com dinheiro para aprender a lidar melhor com ele. Analisando, desde amigos que possuem mais do que seriam capazes de gastar durante toda uma Vida até aqueles, uma maioria, que vivem e sustentam uma família de 4 pessoas com o que eu recebo de aluguel de um apartamento (e que para aqueles mais abonados não pagaria um jantar para 4 pessoas num restaurante mediano), concluo que é na simplicidade que muitas carências têm solução. Aprendo nos dois extremos, por opção. Posso viver num meio-termo, dignamente.

 

E o bom desse aprendizado é que não me tornei refém de mim mesmo. Posso sair de ônibus para paquerar e ter a certeza de que quem se aproximar de mim o fará apenas pelos meus belos olhos azuis, que de azuis só têm a alma - pois são castanhos mesmo - e não pelo status que os carros que tive no passado me transferiam. Algumas pessoas que conheci, e que se interessariam por mim no passado, não me deram muita bola quando me viram sair de carona daquele paraíso que não possuo mas do qual usufruo plenamente, sem temor algum.

 

Engraçado isso, pois para alguns eu faço parte da comitiva do rei. E eles se mascaram perante o meu agir, polidos e subservientes que são, me bajulam e me tratam com educação esmerada para ficarem bem com o rei que enxergam. E eu deixo pensar que sou mesmo amigo do rei deles, pois se para eles o rei é rei, para mim o rei é apenas mais um amigo. Dos mais queridos, com certeza, mas apenas um amigo querido, que come da minha comida e bebe no mesmo copo de requeijão que eu há quase duas décadas. E o rótulo de rei, eles quem colocaram. As homenagens patéticas eles quem criam, eu só observo e os julgo ridículos... E o tal rei deles sabe disso, a mim costuma dizer que odeia ser colocado num pedestal, que ninguém chega onde chegou sendo ingênuo. Não sei.

 

O que sei é que um dia crio coragem  e mando tudo à merda. E vou viver os meus valores. Já fiz isso uma vez, quando vivia dias muito melhores que os de hoje e que aos olhos de muitos foi uma grande loucura. Eles talvez tenham razão, mas sinto no meu coração que fiz o que tinha que fazer. Não, eles não têm razão, é que a minha ousadia bateu forte em seus valores, só isso... E as sensações daquela época estão voltando com uma força imensa, não estranhe meus próximos movimentos. Meus valores ainda estão acima da ética de butique deles. Resta saber a hora de agir. Tenho dormido mal, ando sempre cansado, muito cansado e meus dias não estão felizes, por mais que ao sair da cama eu me coloque um propósito nobre e esteja atento aos muitos detalhes que podem fazer a diferença. Tudo é efêmero e só o que importa é poder respirar aliviado.


Escrito por Henrique Oliveira às 12h00 Comentários Envie

save

Quarta-feira , 17 de Junho

 

Um questionamento que recebi de um amigo:

"Damos tanta importância às gerações futuras, gastamos uma energia imensa pensando numa forma de deixar um planeta melhor para os nossos filhos... Mas, quando é que vamos aprender que, mais importante que isso: devemos educar filhos melhores para o nosso planeta".


Escrito por Henrique Oliveira às 23h11 Comentários Envie

ritual

Terça-feira , 16 de Junho

 

São vários os caminhos que levam a Santiago de Compostella, e eu optei pela Rota Francesa, que sai dos Pirineus e segue por cidades como Pamplona, Burgos e Leon. É a rota mais comum entre aqueles de primeira viagem, em geral quando se decide por reviver essa experiência o peregrino escolhe rotas alternativas. Entre europeus é muito frequente conhecermos alguns que iniciaram sua caminhada a pé da porta de sua casa, trilhando inimagináveis 2 ou 3 mil kms. Conheci uma lésbica austríaca que saiu da fronteira com a Itália de bicicleta e decidiu que voltaria para casa também de bicicleta. Ao todo sua estimativa era de pedalar por uns 6 mil kms.

 

Uma dessas rotas secundárias sai da cidade de Finistérre, tem aproximados 99kms e passa pelas cidades de Olveroa e Negreira, a princípio seria uma rota da cidade litorânea até a catedral, mas historicamente a maior parte dos peregrinos insiste em fazê-la no sentido contrário, complementando a peregrinação a Santiago e indo de encontro ao oceano. A gente costuma brincar que é como colocar a cobertura do bolo, uma saideira, um pequeno bis ao final do espetáculo.

 

E eu fui um dos que não resistiu a uma esticadinha de mais 3 dias. A rota é difícil, bastante mesmo, um tanto quanto íngreme cruzando bosques maravilhosos e na maior parte das vezes se está sozinho, ao contrário da rota francesa que em períodos de pico chega a ter 10 mil peregrinos esparramados entre a fronteira com a França e a catedral. Isso dá uma média de 500 pessoas em cada etapa, uma quantidade razoável de gente para interagir e dividir experiências.

 

O Caminho de Santiago é cheio de rituais. Existem missas que são recomendadas, em igrejas com mais de 1.500 anos, restaurantes que são paradas obrigatórias, museus, e conforme se vai caminhando se tem acesso a essas informações. Por mais que se trace um roteiro prévio, uma das coisas que torna essa experiência única é a imprevisibilidade dos dias. Sabe-se que existe um objetivo lá na frente, mas é necessário programar apenas as próximas horas, estando ciente que os planos podem, e devem, ser modificados.

 

Algumas vezes são necessários cuidados maiores, sobretudo quando se entra em trechos longos com nenhuma infra-estrutura. É o caso dessas três etapas até Finistérre, que ou se come num determinado local e se abastece de água ou terá que andar até 20kms sem essas provisões. Mas sempre se sabe antes alguns cuidados a serem tomados.

 

Em Finistérre o ponto alto é o "Faro", o alto de uma montanha onde se tem uma vista linda do oceano. Nesse local há uma bota em metal, onde se recomenda queimar as roupas usadas durante a caminhada. Alguns queimam todas as roupas usadas nas semanas anteriores, como que deixando ali as dores de toda uma Vida. Nesse local eu presenciei um dos momentos mais mágicos do caminho, que é quando o sol desaparece no horizonte por duas vezes seguidas, e me disseram que algumas vezes até mais.

 

Quando me contaram isso achei que era viagam, mas pude presenciar e a sensação é indescritível. O sol vai baixando devagarinho, eram mais de 10 horas da noite, de repente parece que ele dá um mergulho no mar e sobe novamente, aparece na mesma posição de antes do mergulho, como que por mágica, depois volta a descer lentamente até novo mergulho. Naquele dia foram apenas duas vezes e em certas épocas do ano podem ser três ou mais mergulhos.

 

A explicação é simples e me convenceu, me explicaram que por conta do movimento das marés, da altura das ondas, o que ocorre é uma breve elevação do nível do mar que esconde o sol, deixando-o visível novamente poucos segundos depois. Quanto mais agitado o imenso oceano, combinado com um céu limpo e determinadas fases da lua, mais bonito o espetáculo. E foi nesse clima que eu coloquei minhas roupas para queimar - mas não todas... Preservei as minhas botas (que paguei bem caro), uma calça e uma camiseta, como recordação e também pois tenho um projeto de rafezer essas trilhas no futuro.


Escrito por Henrique Oliveira às 22h33 Comentários Envie

nuances

Segunda-feira , 15 de Junho

 

Algumas vezes o melhor a pensar é mesmo que:

"a felicidade é um estado imaginário".


Escrito por Henrique Oliveira às 21h21 Comentários Envie

farol

Domingo , 14 de Junho

 

Eu acordei na madrugada daquele sábado, 14 de junho de 2003, sentindo um sentimento até então inédito. Sentimento sem nome. Medo, muito medo... Não... Alegria, muita alegria... Também não... Talvez um orgulho, daquele tipo de orgulho que deixa a gente com um sorriso maroto no rosto. Fechava os olhos e me vinham recordações à mente, desde os mais tenros tempos de infância, adolescência, o primeiro beijo...

 

Ouvia alguns peregrinos roncando, fazia muito calor, eu devia ter dormido algumas horas muito pesadamente mas a alma despertara com uma sensação de vazio, vazio que de tão grande não faltava faltar mais nada e se tornava plenitude. Quando o vazio transborda...

 

Nunca antes sentira isso, mas desde então é comum quando a alegria excede ter sentimentos parecidos novamente. Algo como uma ressaca depois daquela festa por tanto tempo ansiada e que ocorrera na noite anterior, logo ao acordar na manhã seguinte. Acho que todo mundo já passou por isso algum dia. E claro que bateu também a ressaca das muitas taças de vinho tinto, dos incontáveis goles daquele licor maravilhoso e das tragadas generosas naquele fuminho marroquino.

 

Pela primeira vez em quase dois meses não haveria missão pros dias seguintes, não haveria aquele caminho cheio de setas amarelas (que em espanhol eles chamam de "flechas"), não haveria o caminhar. Eu poderia acordar mais tarde, o que nem chega a ser vantagem quando se está num quarto com mais de 300 camas. Muitos dos meus companheiros de quarto fechariam suas malas e voltariam aos seus países de origem, às suas famílias, seus trabalhos e suas rotinas de antes da peregrinação. Voltariam mudados, isso é fato, mas retomando alguma rotina. Mas eu não. Eu tinha planos de permanecer na Espanha por mais uns 3 meses, com a mesma mochila nas costas, agora não mais um peregrino e sim um turista.

 

Se é que alguém deixa de ser peregrino.

 

Aquele sentimento estranho não me paralisava, muito pelo contrário, me trazia uma energia criadora muito intensa. Eu não tinha destino, teria apenas aquela noite naquele local, de lá para um hotel ou uma pensão. Sem destino, pela primeira vez na Vida me vi naquela situação, num país que não era o meu, vivendo intensamente uma realidade que anos antes sequer me passava pela cabeça. Eu precisava fazer alguma coisa a mais. Precisava endorfinar novamente, estava viciado naquela sensação de bem-estar.

 

E foi então que decidi passar o final-de-semana em Santiago e na segunda-feira marchar mais 100kms em direção ao oceano, queria molhar meus pés do outro lado do Atlântico. Acordei sei lá que horas e fui pra rua, acabei encontrando uma pensão e por lá me acomodei.

 

Fui novamente à missa dos peregrinos, novamente o tal incensário gigante, novamente as crises de choro. Andei a tarde toda, encontrava outros peregrinos e assim foi até que voltei à pensão. Dormi um pouco, acordei de madrugada e resolvi sair para dar uma volta. Era a hora do sagrado dar lugar ao profano.

 

Acabei parando numa boate gay no centro histórico. Entrei sozinho, e sozinho fiquei. Num momento qualquer um moço passou perto de mim, não deu atenção, nem percebeu minha presença. Desencanei. Fiquei mais algum tempo, dancei, tomei uma cerveja, observei as pessoas se divertindo e senti uma falta enorme dos meus amigos. Naquele momento era eu e mais ninguém. Saí novamente para as ruas, tinha uma informação de que numa área próximo à universidade havia um trecho onde gays se encontravam e fui para lá, guiado pelo meu faro. Acabei encontrando o tal moço da boate.

 

Paramos para conversar, ele me disse que realmente não havia me visto e me pediu desculpas. Conversamos, trocamos alguns beijos, conversamos mais um pouco enquanto ele me encaminhava para um canto mais escuro, onde a coisa esquentou... E eu, tão casto-castíssimo, tentei me controlar, mas comecei a sentir um fogo ardendo, foi um pega daqui, pega dalí, que perdi o controle. Naquele dia soube o que era ejaculação precoce... Afinal eram 60 dias sem nada de sexo e tinha um tesão enorme recolhido. E naquele instante nasceu uma paixão com data marcada, nos encontramos na tarde seguinte, levei-o à pensão e pude então tirar a má impressão da madrugada.

 

Ele chamava-se "Xoan", o equivalente ao nosso "João". Era galego, estudava língua portuguesa na universidade local e sonhava morar no Brasil. Passamos juntos o domingo, na segunda-feira retornei à marcha. Voltei à Santiago durante a semana, nos encontramos novamente e assim foram as três semanas de turimos na Galícia, durante o dia eu pegava um trem para um cidade qualquer e a noite a gente namorava. Depois fui a Portugal por mais duas semanas, sempre que voltava a gente se encontrava e era sempre muito bom.

 

A gente fazia sexo, sim... E era bem bom... Mas, sobretudo, ele me dava textos em português e pedia que eu lesse, tentava repetir a minha pronúncia brasileira e a gente se divertia muito com as suas trapalhadas. Eu imitava sotaque carioca, gaúcho, baiano e ele me questionava como era possível tanta diversidade, isso atiçava a sua curiosidade. Mas a gente sabia que um dia seria o último.

 

E chegou então o dia que tivemos que nos despedir. Trocamos endereços eletrônicos, algumas mensagens depois disso, mas um romance assim em geral está fadado a não dar em nada. Mas foi bem bacana, ainda assim. Uma das coisas mais importantes que aprendi durante esse período foi que a Vida é feita de pequenos mimos, que se apresentam todos os dias, e que a gente tem que assimilá-los como "momentos" que não podem ser desperdiçados.

 

 


Escrito por Henrique Oliveira às 22h55 Comentários Envie

catedral

Sábado , 13 de Junho

 

Eu cheguei à catedral por volta das 10hs da manhã. Havia iniciado minha marcha peregrina 44 dias antes, na fronteira da Espanha com a França; dias difíceis e maravilhosos. Ao chegar adentrei a catedral e me sentia estranho, não conseguia parar de chorar. Turistas vinham me fotografar, alguns me perguntavam se eu precisava de algo, se estava tudo bem comigo, era impossível dar alguns passos sem que alguém me parasse... Teve uma senhora que me pediu que abençoasse as suas pernas, dizia que eu, assim como os peregrinos todos, era um anjo que tinha um link direto com o criador e que o que eu pedisse ele me daria, sempre. Que eu nunca me esquecesse disso. Tocava minhas lágrimas e passava no rosto, como se fosse um bálsamo.

 

Me ofereceram água, comida, vinham me tocar e eu não compreendia aquilo tudo, de simples peregrino a celebridade instantânea. Assisti a primeira missa, conheci o tal do botafumeiro, um incensário gigante de mais de um metro e bem pesado, que para ser movimentado como um pêndulo necessitava de pelo menos uns 12 homens. Eu só chorava. Não conseguia parar. Mas não era um choro triste não, era o choro mais feliz de toda a minha Vida. A missa acabou, fui para a rua, andava de um lado pro outro, algumas vezes em círculos, não sentia fome ou cansaço, nem sei se saberia descrever em palavras tamanha emoção.

 

Após algumas horas fui finalmente para o albergue, necessitava um banho, uma cama - estava sem dormir havia quase dois dias... E a cabeça a milhão. Não reencontrei os amigos da véspera, encontrei outros conhecidos pelo caminho, passei o final de semana por lá e na segunda decidi dar uma esticada, seriam mais 3 dias para percorrer mais 100kms e chegar a Finisterre, onde séculos atrás acreditava-se ser o fim da terra. Para mim era como se eu tivesse que continuar andando.

 

Dizem que há uma tal "depressão pós-caminho", e deve haver mesmo. Do ponto de vista orgânico, a gente produz muita endorfina por vários dias seguidos, quando para essa produção diminui e vem aquela angústia chata.

 

De uma ótica menos física uma questão fica martelando na cabeça da gente: "E o que é que eu faço agora, que a caminhada acabou? E agora, o que é que eu faço comigo? Aquele que eu era já não sou mais, e esse que acabei de me tornar ainda não conheço o suficiente, tenho uma longa caminhada para descobrir quem é. Uma nova jornada está apenas começando..."


Escrito por Henrique Oliveira às 11h09 Comentários Envie

gozo

Sexta-feira , 12 de Junho

 

Exatos seis anos atrás e eu estava prestes a concluir aquela que seria, sem dúvida, a melhor e mais enriquecedora experiência dessa Vida: chegar à Catedral de Santiago de Compostella depois de caminhar por cerca de 900kms em 44 dias, cruzando a Espanha de leste a oeste. Era dia 12 de junho - dia dos namorados no Brasil, data sem maiores importâncias mundo afora - e eu chegava finalmente ao Monte do Gozo, um complexo turístico distante cerca de 6kms da cidade de Santiago. Poderia ter esticado um pouco mais a caminhada, mas tinha comigo que queria chegar à catedral numa sexta-feira 13, 13 de junho, dia de Santo Antônio, o tal do santo casamenteiro. Eu sou meio chegado a essas coisas, já disse isso aqui...

 

Foram dias difíceis, fisicamente falando. Eu não possuia o preparo físico para uma empreitada desse porte, embora tenha conhecido pessoas de muito mais idade e muito menos preparo físico que eu que tiraram de letra essa longa jornada. Conheci uma senhora do interior do estado que tinha "joanetes" nos pés, onde sentia muita dor, usava um tênis comum, não havia se preparado nada e fez bonito - andava calmamente, num rítmo próprio e sem reclamar de nada, era sempre a última a chegar aos albergues, muitas vezes quando todas as camas estavam ocupadas. Conheci também atletas, um deles o técnico da seleção de vôlei, José Roberto Guimarães, que apesar de uma vida dedicada aos esportes exagerou na carga e tomou um gancho por conta de uma lesão muscular. Super-homens não existem.

 

Não que emocionalmente tenha sido fácil, pois não foi também não. Muitas angústias, muitos temores, muitas incertezas... Teve dias em que eu chorava de dor nos joelhos, tive uma lesão séria no menisco que quase impossibilitou-me de concluir meu intento. Tive bolhas nos pés, somatizei tudo o que um bom peregrino pode somatizar. Teve dias que chorava de saudade das pessoas queridas, em que sentia falta de alguém para me fazer carinho. Sentia saudade da comida da minha mãe, do cheiro dos meus amigos, chorava de tristeza e de alegria e nunca sabia ao certo se estava alegre ou triste, virava uma coisa só.

 

Naquele dia 12 de junho houve um fato interessante, escolhi ficar nesse complexo da foto acima, no sugestivo "Monte do Gozo", e pela primeira vez estava um um grupo composto quase que exclusivamente por gays, de diversos cantos do mundo. Parecia até combinado previamente, mas foi obra do acaso... Ou será que foi o nome do local, mais as coincidências do dia seguinte, que fizeram com que eles pensassem a mesma coisa que eu?

 

Foi uma noite divertida, muito mesmo, além da conta. Eu vinha de um longo período de abstinência sexual - estava com zero de sexo desde o dia 15 de abril, ou seja, eram quase dois meses sem nenhum contato sexual, sequer me masturbava. Nas primeiras semanas a gente estranha, sente muita falta, coisa do hábito mesmo. Os testículos dóem, mas depois de algum tempo o organismo reabsorve o que causa dor e toda aquela energia passa a ter outra utilidade, a gente se sente com uma disposição incrível. Mas nem era sobre minha abstinência sexual que queria falar.

 

Entre os supostos gays presentes havia italianos, franceses, espanhóis, alemães. Representando a frágil américa havia além de mim, um argentino lindo demais. Essa turma toda parou no alto da montanha e improvisou uma festa, surgiram garrafas e mais garrafas de vinho, uma de um licor tradicional chamado "Orujo" e um dos espanhóis trouxe uma bolsinha cheia de marijuana, que na época eu gostava muito.

 

Pois bem, além de estar sem sexo há tanto tempo, eu estava também há muitos dias sem fumar, e nem preciso dizer o tamanho da baderna que essa combinação fatal causou no meu corpo, na minha mente e na minha alma. Bebemos um monte, fumamos um monte, desatamos a falar e bailar e assim viramos aquela noite até de manhã, fazia calor, noite estrelada, lua cheia e por volta das 6hs fui para o quarto tentar dormir um pouco. Impossível...

 

Por mais que o corpo pedisse descanso, a mente estava acelerada por conta do álcool e da cannabis. Tomei um banho, vesti uma roupa limpa e saí daquele local antes das 8hs, fui caminhando sozinho e chorando calmamente até a catedral, um filme mental me acompanhava e me trazia recordações de dias tão próximos e tão felizes que se encerravam. Me sentia EU como poucas vezes me sentira antes, sorria enquanto chorava, descobrindo alí o melhor significado para as palavras superação e orgulho. Cheguei à catedral, a sensação de vazio era tão imensa que passava a se chamar plenitude. E eu nem preciso dizer que a minha Vida nunca mais foi a mesma.


Escrito por Henrique Oliveira às 10h40 Comentários Envie

Quarta-feira , 10 de Junho

 

Quarenta horas acordado e me sinto inteiro, emendei meu ontem de trabalho durante o dia todo no interior do estado com uma festa de aniversário consagrando novamente o chá,  dessa vez num grupo menor que incluia índios "yauanauá" do Acre e um chá que eles trouxeram, e que chamam de nï. Além de rapé "soplado" diretamente nas narinas por um pajé de 93 anos, 97 anos, ou mais até que isso, que ninguém sabe ao certo, plenamente lúcido e que comandou uns rituais bem bacanas. Já falei que me amarro nessas coisas.

 

O que penso agora é que tive momentos de imensa alegria, de sono e de cansaço, mas como cantei e bailei, declamei e me alegrei a alma a madrugada inteira hoje cedinho não conseguia dormir, apenas estiquei as costas um tempo, fiz uns alongamentos e exercícios respiratórios, tomei uma ducha generosa bem demorada, me barbeei e voltei dirigindo pra Sampa pra trabalhar o dia todo, e dessa vez consegui produzir normal, dei uma dormida profunda de 10 segundos no carro, de carona quando voltávamos do almoço, entrevistei duas profissionais pra uma vaga, adiantei um monte de tarefas de amanhã, fiquei um pouco com os meus pais e só agora sinto mesmo que estou podrão, o sono chegando juntar-se-á com o cansaço e vou dormir que nem uma rocha por umas 7 horas. Trabalho amanhã e depois tenho 3 dias de folga. E com esse friozinho, vou descansar um monte.


Escrito por Henrique Oliveira às 21h30 Comentários Envie

caras

Segunda-feira , 08 de Junho

Tiffany Thompson at 25 de Março.


Escrito por Henrique Oliveira às 22h11 Comentários Envie

dancer

Sábado , 06 de Junho

A canção abaixo é linda, razoavelmente antiga. É de 1976 e eu só a conheci bem recentemente, por presente de um amigo com uma sensibilidade incrível para relacionar as canções que conheceu ao longo da Vida com o que se vive no cotidiano, transformar os versos dessas canções em pensamentos que provocam mudanças nos demais. Alguns amigos em comum costumam dizer que a forma mais certeira de atingir o seu coração é através da musicalidade, e eu vou dizer que isso é correto. E dizer também que se canções e instrumentos diversos são atalhos eficazes para trazer-nos para dentro do seu coração, também o são a arte como um todo: cinema, teatro, pinturas e qualquer manifestação artística escancaram ainda mais o coração desse meu amigo, sempre cabe mais um, e esse mais um pode ser um tanto quanto especial.

 

Algumas vezes eu sou o seu porta-voz, o que muito me alegra. É que tenho uma voz forte, gosto absurdamente de ler e enquanto leio declamo mentalmente cada frase, interpreto-a comigo e quando tenho que ler em público uso algumas técnicas para encantar, um misto de ator com locutor com Ser encantado pela Vida e pelas possibilidades de ampliação do conhecimento.

E, modéstia às favas, encanto. Mas encanto por colocar a minha emoção em cada frase, tocando dessa forma mesmo os corações mais angustiados ou peludos. E quando mando a modéstia às favas, aproveito para dizer que prefiro que me critiquem pela soberba que pela falsa modéstia. Tem momentos em que sou extremamente humilde, bom aprendiz, mas não vejo nada de errado em ressaltar que tem horas em que eu sou phoda...

 

Esse meu querido faz aniversário por esses dias. Além de me apresentar essa canção ele escreveu um texto e me deu a missão de fazer a leitura para os seus convidados na sua festa de domingo, umas 100 pessoas num salão dourado consagrando ayahuasca e trocando afeto. Depois de cantarmos em alto e bom tom, exorcizando nossos demônios, fazemos uma audição, musicas lindas, leituras, enquanto todos permanecem em silêncio só curtindo cada nova informação.

 

O texto está logo após a canção, tomo a liberdade de dividi-lo com vocês.

 

 

    "Os versos desta canção dizem que a maioria das pessoas são bailarinos que vão dançando suas vidas segundo os passos ditados por outros.
    Esta canção nos encoraja a darmos uma olhada em nossas vidas e assumirmos o papel de coreógrafos, não o de meros bailarinos.

 

    Confiem em si mesmos.
    Confiem na sabedoria interior.

 

    Quase todos nós estamos dando passos que nos foram mostrados por todos que conhecemos desde sempre, e não percebemos o tempo passando e continuamos a dançar conforme o ritmo dos outros.

 

    A canção "For a Dancer", nos sugere que devemos aprender a jogar algumas semente nossas, e virarmos o coreógrafo das nossas vidas, dançando no ritmo que compusermos.
    O próximo nível, então, é a consciência de que o agora é só o que existe. Hoje é o único dia da sua vida. Você não precisa sentir-se preso ou limitado pela sua história pessoal.

 

    Renegocie o seu entendimento quanto ao que vai construir a sua realidade.

 

    Você não mais será apenas um bailarino. Será também um compositor, e uma essência espiritual a examinar as novas dificuldades desta dança.

 

    Confie na realidade da existência desse seu poder interior ilimitado.

 

    A sua forma de viver até agora lhe permitiu funcionar no nível de sobrevivência e merece ser honrada por você. Não rejeitará nem julgará o seu passado. Está apenas prestes a tomar uma decisão de subir um degrau. Nesse novo nível você é o coreógrafo, pratica os passos que está criando, independentemente da sua história pessoal.
    Acontece que, em virtude de ser um produto do seu passado, você dança conforme o ritmo marcado por outras pessoas. A fim de galgar o degrau em direção à sua busca sagrada, deve jogar fora a idéia de que é incapaz de dar esses primeiros passos.

 

    Nascer de novo é deixar de lado o passado, e olhar o presente sem reprovação. (…) Todavia, pede-se a você que desista do futuro e o coloque nas Mãos de Deus. E você verá pela sua experiência que também depositou o passado e o presente nas Mãos Dele, porque o passado não mais vai castigá-lo, e o medo do futuro será agora irrelevante.

 

    Você não precisa de um mestre para lhe ensinar todos os elementos da consciência elevada. Não precisa de um mestre para lhe dizer como apagar seu passado e as limitações em que chegou a acreditar. Precisa é de um mestre para ensinar-lhe que possui poder infinito dentro de si.

    Desfaça-se de todas as crenças que fundamentam sua convicção quanto às suas imperfeições e falhas. Faça uma limpeza naquele armário de velhos princípios a respeito do que você pode e não pode fazer. Abra-se sem mais nem menos neste exato momento. Seja como uma lousa limpa, vazia. Não há nada marcado nem projetado nesse quadro.

    Começa com não. Acaba com agora. Não há culpa em apagar sua historia pessoal. Há muito amor e respeito por tudo o que você aprendeu até agora, mas o agora está vazio e, sobretudo, aberto para todas as possibilidades. Sem restrições, sem limitações, só a vontade de experimentar Deus e a divindade integral do universo dentro de você."


Escrito por Henrique Oliveira às 17h16 Comentários Envie

dancer

Quarta-feira , 03 de Junho

Mantenha um fogo aceso,

brilhando em seus olhos,
preste atenção ao céu aberto.


Você nunca sabe o que está para acontecer.


Eu não lembro de ter te perdido de vista,
você estava sempre dançando,

para dentro e para fora de minha visão.

 

Eu devo ter pensado que você sempre estaria por perto,
brincando de ser palhaço

para sempre manter as coisas na real.


 
Me fazendo de palhaço, eu mantinha tudo real;
mas agora não te encontro em lugar nennum.

 

Não sei o que acontece quando as pessoas morrem,
não importa quanto eu tente compreender, não consigo.
É como uma música que ouço, tocando bem no meu ouvido,
que eu não consigo cantar, mas não consigo parar de ouvi-la.

 

E eu me sinto um idiota por ficar por aí esperando,
chorando enquanto eles te acalmam,
porque eu sei

que você preferiria que nós estivéssemos dançando,
dançando para liberar nossas mágoas.

 

Continue dançando, não importa o que o destino lhe traga
não há nada que você possa fazer de qualquer jeito.

 

Apenas siga os passos que lhe mostraram
por todos que você já conheceu,

até que a dança se torne a sua.
Não importa o quanto os passos de outra pessoa se aproximaram dos seus no final;

há uma dança que você fará sozinho.

 

Mantenha um fogo acesso para a raça humana.
Deixe suas orações voarem pelo espaço,
você nunca sabe o que acontecerá.

 

Talvez um mundo melhor esteja se aproximando
e tão facilmente também tudo poderia desaparecer
junto com qualquer sentido que você possa ter encontrado.

 

Não deixe a incerteza te distrair,
o mundo continua girando.
Vá em frente e faça um som de alegria.

 

Você se tornou um dançarino,
vindo de uma semente que outra pessoa lançou;
vá, e lance algumas sementes vindas de seu próprio ser
e em algum ponto,

entre o dia que voce chegou e o dia que você partir,
pode repousar uma razão para você ter vivido.


Mas você jamais saberá.


Escrito por Meu Amigo Golias às 20h12 Comentários Envie

mantra

Segunda-feira , 01 de Junho

N a d   t e    t u r b e

N a d   t e    e s p a n t e

q u i e n    a    D i ó s    t i e n e

N a d a    l e    f l t a

 

N a d a    t e    t u r b e

N a d a    t e    e s p a n t e

s o l o    D i ó s    b a s t a.

 


Escrito por Henrique Oliveira às 21h12 Comentários Envie

legados

Terça-feira , 26 de Maio

 

 

Domingo tem de novo e o verbo é encarar. Encarar meus medos todos, de frente. Encarar minhas Ilusões e escolher viver com elas e não nelas. A gente costuma dizer que mesmo quando é ruim é bom, dizemos mais, que quanto pior, melhor. Tomamos aquela bebida de gosto amargo que por vezes desce como mel, rasgando a garganta e arrepiando a alma. Estaremos mais uma vez consagrando no Bar do Irineu. O Mestre Irineu. Raimundo Irineu Serra.

 

E ele me ensina enquanto miro. Miro ou alucino. Miro. E nas minhas mirações o Mestre um dia me disse que não temesse, que não temesse com vigor e que fosse sempre forte, que dominasse a minha mente e meus momentos de dificuldades, que seriam muitos esses momentos pois eu escolhi assim, resgate cármico, mas sobretudo pois eu seria um dos últimos a deixar essa morada. Que o meu existir seria assim, de despedidas e perdas no aprendizado.

 

Me disse que eu já era muito forte, que possivelmente nem imaginasse ainda o quanto, e que jamais esmorecesse, mas que não tivesse essa certeza nunca, apenas intuisse assim - pois a dúvida seria sempre uma grande aliada, a certeza nem tanto. Alguns muitos sempre precisariam de mim por perto. Eu confesso que fiquei com um medo imenso, olhava pros meus amigos todos e eles iam ficando velhinhos, velhinhos... Até uma hora em que sorriam pra mim e desapareciam como bolha de sabão. Pluf!

 

Me lembrava do meu pai, da minha mãe e da minha irmã. E para cada um deles a cena se repetia, até que veio um momento de dor muito profunda e olhei para uma moça que vinha em minha direção. Muito se parecia com a minha mãe e devia ter uns quarenta anos, e eu só pensava como é que podia ser a minha mãe se naquele instante eu tinha mais de 70 anos. 70 anos? Caramba, que miração foi essa?

 

Aí eu olhei pra Carina. Naquela época ela nem tinha ficado noiva ainda, nem tinha comprado apartamento no nome do noivo, nem feito aquele aborto que a destruiu, nem ele pilantra saído de sua vida levando o pouco que fizerm juntos. Ela era uma menina cheia de sonhos românticos, agora tão triste e sem brilho. E eu busquei o seu sorriso enquanto seu cabelo foi ficando branco e mais curto, bem mais curto, muito liso e ralinho, ela sorriu resignada e a outra moça segurou as minhas mãos. De alguma forma me dizia que fosse em paz. Naquele instante eu suspirei profundo e me desliguei daquele momento, da moça e da Carina que me observava. Chorei baixinho debaixo do cobertor enquanto alguma mão me acalmava.

 

A moça já não tinha mais os pais ou os avós e nem aquela tia que um dia a abandonou, naquele instante só restava eu. Não teve filhos, viveu alguns romances e nunca ninguém soube ao certo do que é que gostava, mas no fundo gostava mesmo era de homens, embora os achasse tão complicados. Era uma coisa fálica, de encaixe, como ela me mesmo confessara quando mais jovem e fogosa. Mas achava as mulheres boas companheiras e mais atenciosas sexualmente, se definia como um moranguinho. Ela apertou as minhas mãos enquanto acariciava minha testa, senti seu toque se distanciando e me lembro de ouvir uns suspiros, um choro agudo e seu toque pesando sobre meu peito. Por alguns instantes ficamos verdes.

 

 

Chorou triste por mais algumas minutos, sozinha enquanto me fitava resignada. Deixei que me sentisse gelado, pois a partir de então assim seria. Não me veria mais, apenas me intuiria - pois um dia eu lhe jurei nunca faltar. Depois chorou por décadas, silenciosamente, cada dia mais solitária, eu compassivo sempre por perto. Era por fim apenas seu, aquele nosso legado. De tantos outros nossos queridos, mas que só eu e ela compreendemos desde tão cedo. E eu me lembrei, lá naquela miração, do seu choro na maternidade e de tantos momentos em que ela se mostrou forte perante todos, desde pequenina. Por tempos foi assim e ela aprendeu tudo muito mais rápido que eu. Essa lenda é nossa. Legado se cumpre.


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