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BLOGS: Tiago ( Heterônimo ) Quintana

opaco

Sexta-feira , 03 de Outubro

 

 

Quarenta e cinco minutos atrás e ele estava assim, tristinho, sem brilho... Tão tristinho que eu fiquei triste também e fui buscar lá dentro do meu peito, nos confins da sensibilidade, alguma frase de alguém bem legal que a gente gosta e que fizesse a gente deixar de ficar daquele jeito tão tristonho, pensei em Mamonas e Madonna, pois tristeza é coisa muito triste de ver em quem a gente gosta um bocado.

 

Eu fiquei com uma peninha dele, daquelas que dá vontade de abraçar bem forte, bem forte mesmo, com um bração tão grande de imenso que abraçasse ele e me abraçasse também e de novo abraçasse ele, que nem naqueles desenhos bem fofos em que o ursinho rodopia enquanto abraça esmagando o coelhinho, lógico que sem ser forte além da medida o que o fizesse sufocar, se bem que eu já aprendi que abraço bem forte, dado com carinho e com amor, não sufoca ninguém, mas fiquei mesmo foi com temor dele se sentir fraco e chorar nos meus abraços e nessa onda toda eu ficar com vontade de lamber suas lágrimas, achei que ele poderia não entender e achar que eu estava abusando dele, não tem nada mais triste que abraçar alguém e chorar no ombro desse alguém e esse alguém aproveitar nosso momento de fraqueza e abusar da gente...

 

E então eu só falei pra ele não ficar daquele jeito pois senão quem iria chorar seria eu, eu mesmo, percebi que ele se segurou para não desabar, deu uma gargalhada boca seca sorriso amarelo soluço preso na garganta, afinal meninos não choram, ainda mais bem no meio da rua no final de uma tarde ensolarada e justo em frente ao prédio onde mora, com aquela vizinha ruiva antipática e fofoqueira que cria um monte de gatos e fuma tanto o dia todo que tem os dedos amarelos saindo do supermercado, a gente se abraçou bem forte por um tempo que durou exatos alegres e felizes momentos de carinho compassivo ou de outra ótica menos poética singelos instantes de amizade mais cumplicidade e se deu um sorriso tão gostoso que percebeu que nada mais importava, sequer nos lembrávamos mais da razão, da tristeza e da razão da tristeza, e nem da vizinha tabagista que poderia nos olhar com olhos de estranheza, e eu aproveitei esse momento mágico só nosso tanto tempo ansiado para passar a mão no seu cabelo loirinho crespo, bem lá atrás na nuca, no cangote, e matar uma vontade que tinha havia meses.

 

E eu me delato que desejei que saíssem dos meus olhos algumas lágrimas que escorressem pela minha face pra ele lamber, confesso ainda que eu não iria me incomodar nem um pouco se ele abusasse de mim, digo até que iria gostar, e iria gostar muito mesmo, tanto que iria querer disso um pouco a cada dia.

 

E quando ele me disse que já estava melhor e que desabafar comigo tinha ajudado a segurar a onda a gente ficou ótimo, e eu enxerguei naqueles olhos esmeralda um brilho que nunca vi antes, e o máximo de abuso que me permiti fazer foi puxar a sua cabeça e dar um selinho bem no alto da testa, perto do moicano estilizado crespinho, daqueles que você encosta e pára por uma terna eternidade.

 

Dizem que beijar assim é sinal de respeito, mas eu sempre achei que é sinal de alguma coisa que ainda não inventaram o nome.


Escrito por Henrique às 19h19 Comentários Envie

magrelinho

Quarta-feira , 01 de Outubro

 

 "Não sei por que certas pessoas se referem à infância

como a época mais feliz de suas vidas.

Eu lembro os meus dias de criança,

como um período interminável,

monótono e triste, onde o medo dominava tudo

medo do desconhecido.

Para mim, o paraíso infantil não existe.

Não acredito na bondade, nem na inocência das crianças."

 

Clarice Lispector


 "A palavra é o meu domínio sobre o mundo."


Escrito por Henrique às 22h55 Comentários Envie

sangrando *

Domingo , 28 de Setembro

 

 

Eu suponho que disfarço bem, posso estar moído de tristeza e ainda assim busco estampar no meu rosto um sorriso de campeão paraolímpico, daqueles que significam superação e que acabam por te convencer, ainda que esteja um tanto quanto amarelado; penso e até acredito que posso ser mais forte que as minhas dores e angústias e que quando eu soltar a minha voz melhor será se for para falar palavras doces, transmitir mensagens amigas, mas por favor entenda que muitas vezes entre palavras alegres, de incentivo e de conforto, que palavra por palavra proferida, resultado de sentimentos ambíguos esculpidos pela alma muito antes de verbalizadas pelo corpo, que a cada pausa para respiração haverá no fundo, bem lá no fundo, um homem que mesmo triste e solitário, não se deixa abater por isso e segue na batalha: eis aqui uma pessoa se entregando.


 

 


Eu lhe direi então que, coração na boca e em cada célula desse corpo, sou todo sentimento: não só os bons, feliz ou infelizmente, sigo de peito aberto, pronto para o próximo tombo por nocaute ou, quem sabe por merecimento e com muita sorte, para mais uma celebração; sempre pronto para o próximo abraço amigo ou para mais um olhar de desprezo, vou sangrando e deixando pelo caminho nem sempre suave um rastro de sangue, gotinhas como grãos de feijão que um dia me auxiliarão no voltar ao lar, tal qual João ou Maria ou Cinderela, sei lá quem era o tonto que deixava os grãozinhos espalhados por aí que nem as minhas gotinhas de sangue positivado, voltar ao lar onde tudo é mais tranqüilo, onde no ventre materno há aconchego e calor na medida exata, onde não nos ocupamos do saber que viver é batalha diária; são as lutas dessa nossa vida que nos fazem crescer, e ainda assim insano que sempre serei, sigo buscando quarar o meu sorriso: mas, ainda assim eu estou cantando.


 

 


E digo mais: Quando eu abrir minha garganta e nesse abrir da garganta não há nada além do verbal, nenhuma gula fálica, nenhuma sede etílica, nenhum trago proibido, quando eu escancarar o verbo botando de dentro para fora todas as frustrações desse abominável mundo novo que criamos, todos os medos desse menino frágil que insistem em pensar homem forte, principalmente você, saiba que essa força tanta, essa força tamanha tantas vezes gritada, tantas vezes murmurada, em tom de cansada indignação, bradada em tom de franco desabafo, redimida de si mesma por vezes sem saber as razões da sua resistência, rouca e insistidamente repetida por anos a fio, tudo que você ouvir saiba que é meu, mas não tão somente meu pois eu te permito se encontrar nas minhas dúvidas, esteja certa ou errada a minha visão do mundo, não importa nada mais que isso: tenha claro que estarei vivendo. E talvez por mais que eu teime em querer sempre mais, eu sei que isso basta.

 

Preste atenção quando eu estiver falando, mas não ouça as minhas palavras não, saiba que elas podem ser mentirosas, tão mentirosas quanto eu posso ser, tão mentirosas como pode ser qualquer ser acuado: Veja o brilho dos meus olhos. Eles muitas vezes dizem muito mais que palavras, palavras muitas vezes traiçoeiras, mal interpretadas, incompreendidas pois desconhecidas. Olhe além delas, observe o meu corpo que fala por cada poro, e o tremor nas minhas mãos e a minha inquietude, a minha ansiedade que me faz transpirar encharcando a minha camisa, e o meu corpo tão suado e tudo o mais que puder observar pois eu me delato, tú me delatas e ao menor sinal de que me compreendes me verá transbordando toda a raça e emoção. Sim, pois eu sou isso: raça ainda que na pirraça e teimosia de insistir em argumentar que não andamos na contra-mão do bom senso, e emoção; ainda que contida querendo explodir.

 

 

 

Mas não se assuste comigo não, meus temores não são nem maiores e nem menores que os seus, e se eu chorar apenas me abrace forte e não diga palavra, pois nenhuma terá maior serventia que um abraço, deixe que as minhas lágrimas molhem seu ombro e continue me abraçando por dias e dias bem forte, até que a dor suma de novo, pois nada é para sempre e fique por perto em silêncio até que tudo passe e quando mais uma vez o sal molhar o meu sorriso, quando mais uma vez meus temores teimarem pensar que são mais fortes que o que nos une, não se espante, fique por perto e não se afaste, apenas cantarole aquela canção de ninar que você inventou naquela noite que a gente sorria feliz, naquela noite em que a palavra paixão não era apenas seis letrinhas num dicionário, naquela noite que insistia em querer virar dia e a gente se alegrava com isso, cante que o teu canto não apenas me alegra como também é a minha força pra cantar.

 

 

 

Eu posso olhar para trás, pensar que nada valeu e me perguntar onde é que está você agora, temer que nesse exato instante as suas dores sejam maiores que as minhas (pois elas sempre foram maiores que as minha, lembra?), pensar que faz um frio danado aí fora e você não tem ninguém para te fazer sorrir, ninguém que te ame como eu te amo (embora eu nem saiba se acredito em amor e em ainda amar esse alguém que você é hoje, tão distinto daquele que me fez acreditar que era algum dia lá atrás), posso pensar que nesse instante seu corpo já foi abandonado exausto numa caixa de papelão embaixo de um viaduto qualquer, dopado por substâncias que te destruiram e te levaram a esse estado, posso imaginar que nesse instante alguém além de mim se lembrou de você nesse seu dia, mesmo sem saber onde anda você, com quem anda você. E quando eu soltar a minha voz por favor (ou por amor, pelo amor que a gente banalizou quando tanto precisava acreditar nele, quando tanto desejou se salvar e também ao outro, através dele, em nosso perene cortejo da insanidade) entenda que... é apenas o meu jeito de Viver o que é Amar...

 
 

 

 

Feliz aniversário.

 

(E pode dormir em paz, junto aos seus caixotes, caixas de papelão, vira-latas de estimação, amores bandidos, garrafas de cachaça e tudo o mais que as suas ilusões pedirem, pois já se consumou o tempo da gente... E eu respeito o teu livre-arbítrio...)

 

* Divagações sobre o poema-canção Sangrando (Gonzaguinha).


Escrito por Henrique às 09h01 Comentários Envie

janela

Sábado , 27 de Setembro


Escrito por Henrique às 17h30 Comentários Envie

portal

Domingo , 21 de Setembro

 


Escrito por Henrique às 18h30 Comentários Envie

iluminado

Sexta-feira , 19 de Setembro

 

 

Uma das características dos seres iluminados, de acordo com princípios comuns em algumas religiões ou filosofias orientais, é não demonstrar estado alterado de humor e jamais dizer palavras negativas...

 

Não manifestar seus desconfortos com impaciência, com indignação é uma coisa; é comportar-se de forma equilibrada a bem da coletividade, e eu até conheço algumas pessoas que são verdadeiramente assim e até passo para aqueles que me conhecem superficialmente a impressão de estar nesse estágio de evolução, já ouvi pessoas comentando a meu respeito que não me estresso com nada... Na teoria eu acho isso bacaníssimo, mas na prática a coisa é um pouco mais complexa e tenho consciência de estar ainda bastante distante desse estágio. O que faço é buscar o auto-controle, respirar fundo antes de falar o que me vem à cabeça.

 

Algumas vezes busco me orientar por essa característica, naqueles momentos em que me dou por conta que o melhor é não expressar sentimentos, fazer aquela carinha blasé (talvez quem sabe um pouquinho aborrecido) e não mover sequer sombrancelha, fazer aquela expressão tô-nem-aí que você está querendo me complicar a Vida e seguir sem explicitar que não estou gostando disso ou daquilo; em outras ligo mesmo o pisca alerta no foda-se e me respeito pelo humano que sou, é quando falo o que penso, quando solto as rédeas e então prepare-se que não meço muito o que vou falar.

 

Mas não sou de dar escândalo não. Não mais. Não acho chique mas já dei alguns no passado nem tão distante... E nem sei se me arrependo. Aprendi também que tem hora que só bancando a louca é que a gente consegue dizer o que está pensando! Afinal, quem é que contesta uma louca? Só se for mais louca ainda!


Escrito por Henrique às 07h36 Comentários Envie

mara maravilha

Domingo , 14 de Setembro

As coisas são assim mesmo; simples, extremamente simples...

E nem gastemos nosso tempo com argumentações contrárias.


Escrito por Henrique às 12h28 Comentários Envie

sem censura

Quinta-feira , 11 de Setembro

 

 

Minha chatice é apenas um dos meus inúmeros encantos...


Escrito por Henrique às 22h14 Comentários Envie

censura

Sábado , 06 de Setembro

 

Dos comentários recentes, que leio e respondo todos, houve um que me chamou a atenção ao me trazer questionamentos, nele o leitor querido (que é também meu xará) disse que achava que eu tinha perdido o interesse por esse espaço, o que seria uma pena.

 

Pois bem, eu respondi que não, que não havia perdido o interesse por divagar por essas terras e bati na tecla do cansaço e da falta de tempo, mas fiquei eu mesmo me perguntando se, de verdade, essa fase de blog já tinha passado e se eu não estava me escondendo atrás de desculpas para não assumir a falta de interesse por esse espaço. E fiquei me indagando por quais razões tenho andado tão irregular, se já não era a hora de dizer Adeus e fechar esse espaço - afinal nada precisa ser para sempre e o que mais existe nessa rede é blog abandonado.

 

Não vou insistir nessa coisa de falta de tempo ou cansaço não, realmente não é só isso. E nem estou ligando mais pra falta de atenção do pessoal do MixBrasil em atualizar as chamadas, isso já me incomodou muito em outras épocas, nem vou reclamar que há tempos não recebo destaque no portal pois foda-se, preciso tanto deles quanto eles de mim, ou seja, praticamente nada uma vez que nem a hospedagem é feita nos servidores do MixBrasil e mais da metade dos acessos é feita diretamente, estou em "favoritos" de muita gente. A outra quase metade da origem dos acessos é dividida entre os "googles" da Vida ou feita através dos links de blogs amigos, o acesso por esse portal gay responde por no máximo 30% dos leitores, sobretudo os novos. Há alguns meses instalei uma ferramenta que monitora os acessos, assim fico sabendo que muita gente acessa e fica poucos segundos (creio que em virtude de não haver novidades) e há uns 10% dos leitores que se mantém lendo meus textos por mais de uma hora. E depois ainda tem gente que reclama que eu escrevo textos muito longos...

 

Mas voltando às razões de escrever pouco, acho que baixou em mim uma coisa de auto-censura... Explico: escrevo e assino por heterônimo, iniciei dessa forma para preservar minha identidade, mas esse heterônimo é hoje conhecido de boa parte dos meus amigos não virtuais, amigos que lêem as coisas que escrevo e isso de alguma forma tem limitado a minha expressão - era mais fácil quando essa era uma identidade secreta...

 

Hoje esse espaço é lido pela minha família e por amigos de todas as tribos e tem hora que saber disso me limita de alguma forma, muitas vezes penso em desabafar nesse cantinho, muito mais do que já faço, falar dos meus conflitos com as pessoas do meu cotidiano e então fazer minha interpretação dos fatos vividos, mas acho que isso pode causar constrangimentos aos citados ou pessoas que possam identificá-los e acabo me bloqueando, tem dias que até escrevo um monte, mas ao terminar leio tudo e acho melhor não publicar pois ficou íntimo demais.

 

Teve um episódio recente em que escrevi algumas coisas e depois soube que uma pessoa próxima se sentiu ofendida, mesmo sem ser citada, lhe pareceu que eu tinha mandado uma indireta, como se eu precisasse disso, tanto que comentou com uma amiga nossa e ainda me deixou aqui um comentário magoado feito de forma irônica... Tudo bem que naquela semana o clima entre a gente estava tenso, mas na verdade a intenção não foi mandar indireta, pois em geral sou de falar pessoalmente o que penso mas depois, relendo o texto, vi que parecia mesmo ser uma indireta, ainda assim mantive a escrita original e o comentário, fiel à idéia de que o que valia era a minha intenção primária.

 

Então, não é só a falta de tempo ou o cansaço não, há ainda mais esse fator e estou atento a isso. Tempo a gente arranja, basta priorizar e se eu quiser consigo reservar algumas horinhas na semana para cuidar desse espaço, lidar com o cansaço é um pouco mais complicado e esse lance da auto-censura é lição-de-casa mesmo.

 

Quando escrever e pensar que alguém pode se incomodar, o melhor talvez seja publicar sem medo e me preparar para as consequências, quem sabe a partir do instante que alguém vestir a carapuça isso nos abra a guarda para uma conversa franca sobre os meus sentimentos e os que as minhas divagações provocaram nesse alguém.

 

Na maioria dos casos, haja vista que a intenção não é lavar roupa suja por aqui, a tendência é melhorar o que por suposto não anda bem. Algo para ser pensado, concordam? Mas o principal é que devo manter a espontaneidade, não é?

 

(A foto de ilustração desse post é bastante íntima e pessoal, eu estava brincando de "Tio Rafinha" com a minha sobrinha, a missão dela era fazer muitas tatuagens no meu braço pra eu ficar igual ao lindinho vencedor do BBB8... Que idéia bacana, dificil depois foi tomar banho e ver que algumas cores insistiram em ficar no braço por vários dias... Mas o que importou foi a diversão e as risadas que demos juntos naquele sábado chuvoso... A Vida é uma colcha de retalhos de momentos felizes e esse foi mais um deles.)

 


Escrito por Henrique às 16h01 Comentários Envie

labirinto

Domingo , 31 de Agosto

 

 

Me sinto confuso, mais uma vez, com medo. Fico aqui com o meu mental acelerado, tentando buscar respostas pras perguntas que sequer consigo elaborar, misturo divagações de Renato Russo e Cazuza com citações bíblicas, concluo que se de fato muitos temores nascem do cansaço e da solidão está tudo explicado pois me sinto solitário e cansado, e então se é verdade que orando melhora o melhor mesmo é orar, mas não sei para quem, já acendi muita vela pra defunto vagabundo...

 

Minha Vida anda um tédio absoluto, uma insatisfação me ronda o tempo todo, não uma tristeza permanente mas uma falta de alegria consistente, uma alegria que se sustente sozinha, a alegria pura e simples e sem a justificativa das palavras, disfarço minhas inquietações brincando que a felicidade é um estado imaginário, digo sorridente que me imagino feliz enquanto fico me perguntando desde quando me sinto assim, nessa melancolia que me ronda o tempo todo, e arrisco dizer que desde sempre.

 

Nada acontece, eu não crio expectativas e deixo a Vida me levar, sou quase qual cachorro vadio que se norteia pelo cheiro da fome, que segue um sorriso enganador mesmo sabendo que será chutado na próxima esquina. Saudosista e amargurado que sou fico me perguntando quando é que foi que me enfiei nesse labirinto e se algum dia acharei a saída. Não falo de coisas concretas, pois sou prático o bastante para listá-las e criar um plano de contingência para lidar com elas; falo das dores abstratas, aquelas que navalham a alma, que dóem tão profundo que a gente nem sente mais, falo da madrugada fria que insiste invadir a noite que deveria ser de sono.

 

Acabo de chegar da praia, mais uma vez me permiti estar com pessoas queridas que me querem bem. Foi um final de semana lindo, frio com chuva no sábado e um domingo de sol gelado excelente para caminhar na areia. E só caminhei por umas quatro horas, sem rumo certo, algumas vezes com amigos, em outras sozinho. Mas me sentia estranho o tempo todo, com um gosto estranho na boca, com um olhar parado de quem não sabia como agir.

 

Me lembro agora, com razoável nitidez, de uma cena em um filme, Albergue Espanhol, em que já bem ao final da história o protagonista caminhando sozinho pela rua delata sorridente em pensamento as suas inquietações com o mundo externo, quando admite que permanentemente tem a sensação de não pertencer ao local onde está. Pois sou meio assim, o tempo todo tenho a sensação de não querer estar onde estou.

 

Estive com pessoas lindas, dando risada, boa comida, boa bebida. Gente bacana mesmo, homens e mulheres da minha idade, casados, solteiros, não importa, são amigos que gostam de celebrar a Vida, reunir outros queridos. E sei que sou querido, por eles e em muitos outros grupos, estava lá mas estava aqui, estou aqui mas queria estar lá, nada me satisfaz. Amanhã será mais um dia em que terei essa sensação e assim por diante. Acho que estou mesmo é precisando dar uns bons beijos na boca. Antes fosse só isso...


Escrito por Henrique às 22h14 Comentários Envie

pressa

Terça-feira , 26 de Agosto

 

 

Dos aprendizados recentes creio que o de mais valia é a importância de se desistir da pressa, aprender a respeitar o tempo natural de cada processo, ter calma e tranquilidade sobretudo na hora de se expressar. É a porra da pressa que faz a gente fazer de qualquer jeito para cumprir um prazo que muitas vezes só existe na cabeça da gente, é a porra da pressa que faz a gente botar os pés pelas mãos e fazer besteira, e que bom que eu venho conseguindo assimilar isso, ainda que a duras penas muitas vezes. Tenho aprendido sobretudo em relação ao momento de calar ou de falar, justo eu sempre tão ligado e tão rápido, sempre com uma resposta pronta na ponta da língua, nem sempre tão doce e amigável como deveria ser, tenho muitas vezes que mordê-la para não me arrepender depois. Penso, mas não verbalizo, ao menos não socializo a merda...

 

Mas eu não estou dizendo que no meu mental as coisas não continuam aceleradas, apressadas e acho que até mais que antes, e a minha interpretação é simples: quando a gente se expressa no pá e pum, bota pra fora o que está pensando, em geral esgota o assunto e ao menos não fica remoendo possibilidades no mental.

 

Ou seja, parece fácil, mas não é.


Escrito por Henrique às 22h35 Comentários Envie

oiê...

Quinta-feira , 21 de Agosto

 

 

Ultimamente tem sido mais ou menos assim, eu fico o dia inteiro com vontade de blogar mas não posso, tenho um absurdo de coisas pra fazer e nenhuma chance de parar pra escrever. A todo instante me surgem idéias e mais idéias, fico numa divagação mental mas tenho que desligar e focar no meu trabalho, que requer bastante atenção. E quando chego em casa a noitinha estou tão cansado que só quero saber de um banho, um jantar leve, uma ou duas horas de ameba em frente a televisão com direito a cochilo antes de ir pra cama. E é assim a semana toda, os sábados e domingos passam tão rápido que nem me dou por conta, acabo tirando esses dias para descansar e resolver assuntos pessoais. Me sinto displicente com esse meu mimo, esse meu blog querido, mas não dá pra fazer diferente, fazer apenas por fazer, não gosto disso e então tenho que aceitar as coisas como elas se apresentam. Acho que me falta alguma disciplina, mas ao mesmo tempo de obrigatório já basta o que tenho no trabalho, e mesmo no trabalho procuro fazer não apenas por obrigação.

 

Mas a quantas anda a minha Vida? Vida profissional, pessoal... Não sei muito não... Fico pensando e constato que poucas vezes me senti tão espontâneo quanto nos últimos meses, digo isso no sentido de não ter muita ansiedade ou expectativa, o que me permite deixar que a Vida me leve. Deixo a Vida me levar, vou nadando conforme as correntezas, dançando conforme as músicas, fazendo as coisas que aparecem e acho que é um bom sinal, de amadurecimento. Irônico pensar que estou livre, leve e solto, justo eu sempre tão planilhado, sempre tão sabendo o rumo das coisas... Mas acreditava que um dia isso haveria de mudar, e felizmente mudou.

 

Mas vamos lá, falar um pouco de mim nesses dias corridos... Estou com a vida profissional em fase excelente, novos desafios que surgem a todo instante, me lembro sempre que quando iniciei a negociação para esse novo trabalho eu contei das minhas experiências e deixei claro que não tinha experiência nenhuma com recursos humanos, nem com a área de suprimentos ou área financeira. Expliquei durante o processo de seleção (que encaro muito mais como um flerte...) que eu dominava a área comercial, as áreas técnicas todas, assistência técnica, desenvolvimento, informática, pois foram quase 20 anos trabalhando nessas áreas e não teria muita novidade por aqui não... Ironia dos meus chefes malucos (que já eram meus amigos algum tempo antes desse casamento profissional) que me dão liberdade e carta branca para trabalhar e hoje eu faço de tudo um pouco, exceto financeiro, não tenho talento pra finaças... Mas estou mais focado em recursos humanos, cuido de recrutamento e seleção, treinamento, supervisiono equipes, tenho pouco mais de 100 pessoas para cuidar e até o final do mês assumo recrutamento e treinamento das outras empresas do grupo, passarei a ter como missão desenvolver e aprimorar 400 pessoas. Mas faço também algo de de compras, vendas, informática, acabo fazendo o que for necessário. Bacana, sem sombra de dúvida eu gosto disso e me sinto feliz.

 

Na Vida afetiva nada de novidades, aquele meu romance platônico é tão íntimo que nem aflora e nem adonatela... Me desculpem pela piadinha sem graça, mas não vou me censurar, não gosto de censura e muitos que me lêem talvez nem tenham entendido mesmo... Pois então, a gente tem se visto umas duas ou três vezes por semana, pinta aquele clima forte, aquela coisa do olhar profundo com sorriso de admiração mas não passa muito disso, uma ou outra frase delatora que faz o outro travar, então eu entro no movimento compaixão e tento imaginar como seriam as coisas se trocássemos os papéis - é bom se colocar no lugar do outro algumas vezes. Mas nossos momentos não seriam muito diferentes, apenas que eu mais jovem já teria me declarado, correndo os riscos pertinentes, digo que eu era bem danadinho quando tinha 21 anos...

 

Na segunda-feira dessa semana eu fui trabalhar de carro, eu havia passado o final-de-semana no sítio com os amigos e por uma questão de logística voltei pra casa com o carro do namorido do diretor da empresa e tinha que levá-lo pra revisão na segunda-feira. Um carrão com itens de segurança e conforto que impressionam e é claro que eu gosto disso... Evidente que liguei pro Caio (o polaquinho...) e lhe ofereci carona, sete e pouco da manhã em frente a uma agência bancária, começamos muito bem a semana com nossas conversas bastante variadas. Teve um momento que eu pensei que a gente fosse se beijar, o clima foi tão forte que cheguei a sentir que iria rolar, acredito que se um de nós se aproximasse na intenção o outro se jogava rapidinho. Mas ficou só no desejo, feliz ou infelizmente. Ficou no ar aquele clima de "o que foi isso"... Me deu taquicardia, fiquei branco, vermelho, sei lá que cor, a garganta secou, deu tontura mas faltou coragem... Deixei o meu garoto no trabalho, nos olhamos com ternura e desejo, e fui trabalhar.

 

Maluco que a gente fica viajando toda hora na idéia de acampar numa cachoeira qualquer, de sair pra beber cerveja até cair, de ir ao cinema assistir o Zé do Caixão, de passear de bicicleta no Villa Lobos, de ir dançar numa balada qualquer... Mas não faz nada disso, um fica esperando o outro se jogar e nada acontece. Encantou? Sei lá. E nem me importo, está bom como está.

 

No mais a minha mãe está bem, essa semana completou dois meses da primeira cirurgia (a retirada de um quadrante do seio direito), ela está se recuperando legal e hoje começou a fazer radioterapia, não será necessário fazer quimioterapia, embora ela tenha que tomar até o final da Vida um medicamento que custa uma bagatela de dois salários mínimos. Mas melhor assim, ela não lidou bem com a simples hipótese da quimio. Meu pai continua exemplar e eu fico muito feliz por estar em harmonia com eles, é a família que tenho.

 

O que eu tenho a dizer é isso, me sinto feliz apesar dessas adversidades, me sinto maduro e pronto para encarar o que aparecer.

 

Essa semana refiz meus exames de sangue, faço três consultas por ano com a infectologista e há tempos me mantenho com carga viral indetectável e CD4 em valores bacanas, tudo bem que sou Caxias com os medicamentos, não sei o que é adoecer há tempos, não me lembro quando foi a última vez que algo me fez cair de cama, uma ou outra leve indisposição gástrica, algum resfriado, mas nada mais sério e sempre consigo relacionar eventos desse tipo com algum fator externo, uma chuva, uma noite mal dormida, um alimento diferente do habitual.

 

Aliás, faz tempo que não caio de cama, nem por doença e nem por lazer. Mas cabe dizer que sinto falta de acordar de madrugada ao lado de alguém... E que bom que estou aprendendo a controlar minha ansiedade e há tempos desisti da pressa...


Escrito por Henrique às 23h00 Comentários Envie

love

Segunda-feira , 18 de Agosto

 

 

 

   Quando o amor o chamar, se guie, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa feri-vos e quando ele vos falar, acreditai nele, embora a sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim, pois da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica e da mesma forma que contribui para o vosso crescimento, trabalha para vossa poda.


   E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também desce até vossas raízes e a sacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo ele vos aperta junto ao seu coração, ele vos debulha para expor a vossa nudez, ele vos peneira para libertar-vos das palhas, ele vos mói até extrema brancura, ele vos amassa até que vos torneis maleáveis e então ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.


   Todas essas coisas o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e com esse conhecimento vos convertais no pão místico do banquete divino; todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz do amor, o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez, abandonásseis a ira do amor para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.


   O amor nada dá, senão de si próprio e nada recebe, senão de si próprio; o amor não possui nem se deixa possuir - pois o amor basta-se a si mesmo... Quando um de vós ama, que não diga, mas que diga antes e não imagineis que possais dirigir o curso do amor - pois o amor se vos achar dignos determinará ele próprio vosso curso. O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude.

 

   Se contudo amardes e precisardes ter desejos, que sejam estes os vossos desejos de vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite; de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada; de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor, e de sangrardes de boa vontade e com alegria; de acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor; de descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor; de voltardes pra casa à noite com gratidão e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado e nos lábios uma canção de bem-aventurança.

 

Khalil Gibran


Escrito por Henrique às 22h35 Comentários Envie

infinito

Sábado , 16 de Agosto

 

  


Escrito por Henrique às 17h30 Comentários Envie

estiagem

Segunda-feira , 11 de Agosto


Escrito por Henrique às 23h45 Comentários Envie


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