BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

Purpurina, dezembro

Sexta-feira , 30 de Novembro de 2007

 

 

Festa de Confraternização

Projeto Purpurina

 

Data: 02 de dezembro (Próximo domingo)
Local: Escola Rainha - Rua Rodésia, 213 - Vila Madalena - SP
Horário: 15hs, saída do Metrô Vila Madalena

Observação: Exclusivo para faixa etária de 14 a 24 anos!

 

É bem gratificante trabalhar nos preparativos de cada nova edição do Projeto Purpurina, estamos chegando à sexta edição - apesar de praticamente nenhum apoio oficial ou patrocínio de empresas e também de alguns setores da militância que além de não auxiliarem, ainda se acham no direito de desmerecerem nosso trabalho.

 

Pois bem, estamos com um grupo de meia dúzia de voluntários trabalhando, sob coordenação da Profa. Edith Modesto, e durante praticamente todo o mês há coisas para fazermos, e ainda bancando os custos de cada evento. E olha que é uma única edição por mês.

 

Exceto pelo pessoal da CADS - Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual, que abraçou nossa idéia desde o início e tem nos auxiliado o quanto podem, e apesar de algumas bolas fora deles também, não temos nenhum outro apoio oficial, é impressionante a burocracia para se aprovar um projeto bacana como esse na prefeitura ou no estado, pedem um monte de documentos, certidões e declarações, o tempo passa, elogiam o projeto mas na hora da liberação de verba nada acontece. E a gente lê nos noticiários que algumas ONG's recebem verbas milionárias para gastarem sem critério, em projetos duvidosos, e porcamente prestam contas do que receberam.

 

Aos poucos a gente vai colhendo frustrações, mas também fortalecendo nossa satisfação com os resultados obtidos nessas primeiras edições e consolidando nosso trabalho. Teve garoto que estava prestes a ser expulso de casa, tamanha rebeldia, mas com apoio dos amigos que fez no projeto conseguiu mudar o rumo da sua vida. Bacana isso, muito mesmo, pena que eu não posso contar detalhes senão a Edith me dá um puxão de orelha daqueles.

 

Se você tem até 24 anos, apareça por lá! E se tiver mais que isso pode mentir a idade, diga que fui eu quem autorizou...

 

Abração, excelente final de semana.

Fiquem com Deus!

 


Escrito por Tiago Quintana às 16h38

Budha que ri.

Quarta-feira , 28 de Novembro de 2007

 

Vejo agora um caminho aberto ao sol;

Sol que brilha em mim, no céu e na canção.

Vibro nessa alegria pois é simples ver:

Sempre que aceito abrir todo meu coração

 

É, esse amor que é meu ser real

me ensina a repartir meu ouro espiritual.

Canto e afirmo a aurora de um novo porvir;

E assim o Budha em mim começa a sorrir!

 

Chandra Lacombe

 

 

 

Uma sugestão de programa musical diferente, um convite para os amigos que estiverem em São Paulo na noite de amanhã, quinta-feira, 29 de novembro: um show do meu amigo Chandra Lacombe, músico incomparável.

 

Segundo as publicações especializadas,

o melhor tocador de kalimba do planeta.

 

Além de ser dono de uma voz inigualável e um poeta capaz de expressar de forma única os anseios da alma humana.

 

 

A Kalimba é um instrumento africano, compacto e que quando bem tocado possui uma versatilidade incrível, sendo chamado por alguns de piano acústico.

 

Vale a pena conferir!

 

 


Escrito por Tiago Quintana às 11h54

scrap

Segunda-feira , 26 de Novembro de 2007




Pouco me importa...
Pouco me importa o que?
Não sei: Pouco me importa.

Alberto Caeiro.
____________________________


Escrito por Tiago Quintana às 22h50

divagando...

Domingo , 25 de Novembro de 2007

 

 

Domingão de ressaca, daquelas brabas! Não que eu tenha encharcado a vela, tomado todas... Não, nada disso. Há tempos abdiquei dos excessos e quando bebo, e isso é raro, bebo sabendo dos meus limites. Ontem tomei umas duas ou três taças de Prosecco, de boa procedência, mas a sensação agora é de ressaca! Por conta de festas e mais festas, sexta e sábado acabei indo dormir bastante tarde - se bem que nem é tão tarde, é o horário que muitos estão saindo de uma balada e indo pra outra - e para um sujeito caseiro como eu, dois dias seguidos indo dormir as 4hs é coisa rara. Como acordo cedo sempre, mesmo quando vou dormir muito tarde em geral as 8hs estou de pé e raramente passo das 10hs, a sensação de ressaca decorre mesmo é das poucas horas de sono.

 

Ontem foi casamento de uma amiga de infância. Uma daquelas muito queridas, que de tanta proximidade entre as famílias acabou recebendo o status afetivo de parente. Ela e o agora marido fizeram tudo certinho, como mandam as revistas femininas: namoraram algum tempo, noivaram há uns três anos e então compraram juntos um terreno, projetaram e construiram uma casa pensando nos filhos que terão muito em breve e no último ano concentraram todos os esforços para uma festa de casamento linda, com tudo que têm direito: igreja muitíssimo bem decorada, trilha sonora cinematográfica bem escolhida e executada por músicos competentes, padrinhos elegantemente uniformizados, noiva com vestido chique valorizando seus atributos físicos, daminhas-de-honra graciosas jogando pétalas salmão e brancas em tapete vermelho, recepção aos amigos num buffet bacana... Uma festa linda como há tempos eu não via.

 

Interessante nesses eventos é que a gente sempre encontra pessoas que não vê há muito tempo, amigos de infância e também pessoas que tempos atrás te causaram algum sofrimento. O tempo passa, a gente se torna adulto e amadurece, mas alguns desafetos de infância parece que não se dissipam nunca, mesmo passados mais de 20 anos.

 

Cito como exemplo alguns garotos do bairro que me perturbavam quando éramos crianças, por conta basicamente dos boatos de que eu era homossexual, isso muito antes da minha iniciação sexual. Hoje somos adultos, mas há uma barreira invisível que nos impede a aproximação, ainda que pensemos nisso e tenhamos pessoas comuns no nosso grupo de amigos. A gente se reconhece, por vezes sequer se cumprimenta, e quando o faz é balançando discretamente a cabeça como quem diz: eu sei que você é você, você sabe que eu sou eu, a gente sabe que somos pessoas de boa índole, mas não existe nenhum laço que nos una. E pronto. Fica na tua que eu fico na minha e até o próximo casamento, festa de aniversário ou velório.

 

Passado tanto tempo as pessoas já sabem muito mais sobre você do que você imagina. Dificilmente alguém ainda me pergunta "quando é que eu vou me casar"... Me perguntam basicamente sobre trabalho, sobre viagens, comentam banalidades, comentam que a minha mãe falou que eu estava viajando para local tal, fazendo trabalho voluntário assim ou assado, trabalhando com isso ou aquilo. Nada muito pessoal, que é para evitar as saias justas, em respeito a mim e principalmente aos meus pais, muito queridos na comunidade.

 

E sempre acontecem aqueles olhares diferentes, e como diz aquela máxima: o olhar é o limite. A gente percebe quando um olhar é de curiosidade ou de interesse... Como esses encontros acontecem a cada dois ou três anos, muita coisa aconteceu com aquele jovem que no último casamento estava com uma namorada, tentando se encaixar num modelo heterossexual. Ele se assimilou como gay, enfrentou a família que digeriu muito melhor do que ele imaginava a sua sexualidade, e quando te vê sente desejo de conversar contigo.

 

É natural. E interessante no dia seguinte é abrir o ORKUT e receber um pedido para ser adicionado por aquele garoto que você viu nascer há quase 30 anos, que hoje é um homem, supostamente um adulto bem resolvido que já terminou uma faculdade, querendo se aproximar de você...

 

Ele já sabe alguma coisa sobre os seus hobbies e caça assunto, mesmo que nunca tenham tido contato efetivo, afinal 10 ou 15 anos de diferença na idade podem não ser muito quando se tem 40 ou 50 anos, mas é uma diferença enorme quando se tem 15 ou 20 anos: infância pura de um, adolescência rebelde do outro.

 

O ponto que levantei, ao final das contas, é que por mais que a gente aja de forma reservada e tente manter discrição sobre a vida pessoal, as pessoas sabem muito mais sobre a gente do que a gente imagina e nos bastidores comenta-se muito sobre tudo. Isso faz parte das relações humanas.

 

E é bastante gratificante pensar no quanto positiva pode ser a imagem que garotos que cresceram ouvindo boatos sobre a minha homossexualidade, e que no decorrer de suas vidas se perceberam gays, criaram de mim. Sabe aquele modelo de gay bem sucedido, bem resolvido com a família e com as próprias questões? É essa a impressão que muitas vezes os jovens têm dos mais velhos, quem dera fosse eu esse cara tão bem resolvido e equilibrado que muitos pensam que eu sou!

 

Pensar nisso me faz abrir um sorriso enorme, pois querendo ou não é normal que a gente se sinta bem com a validação alheia. Concordam? E me faz pensar que muitos dos meus conflitos decorrem, basicamente, das muitas utopias que eu crio na minha cabeça, boa parte do tempo!

 

Ao final das contas é tudo muito simples!

 

 


Escrito por Tiago Quintana às 15h55

sossegado...

Quarta-feira , 21 de Novembro de 2007

 

Hoje eu tirei o dia inteirinho para mim, havia algum tempo que eu sentia estar precisando de um dia como hoje. Sabe aquela coisa de você com você mesmo? Mas estava complicado e não conseguia sequer pensar em um dia só meu, eu vinha de um período agitado, especialmente nas últimas duas ou três semanas. Pois bem, aproveitei que minha família está viajando e só chega amanhã e tirei meu dia de folga das funções do mundo moderno. Na verdade não tinha nada de importante para resolver hoje.

 

Acordei até cedo, dei uma geral nos emails, vi que tinha sido convocado de última hora para uma atividade à tarde, que eu até gostaria de participar, seria legal, mas como eu não era imprescindível optei por não ir. Então tomei um café reforçado e voltei pra cama sem culpa, merecia mais algumas horas de sono. Acabei não dormindo, mas foi ainda mais legal escolher um CD de mantras e ficar meditando, alongando, respirando, pensando no quanto a vida me tem sido generosa.

 

Levantei bem disposto, mas como tenho as minhas capricornices achei que tinha que caçar alguma atividade, ir ao banco, ir ao mercado, dar um pulo no ateliê que nem cheguei a abrir direito e já vou fechar, sei lá, sentia que tinha que fazer alguma coisa. Mas queria ficar em casa, quieto em casa, ainda assim achava que tinha que fazer algo, sempre a mania de estar em atividade, trabalhando, produzindo, criando... Signozinho chato esse meu!

 

Que tal então arrumar as gavetas? Separar as cuecas e as meias misturadas com as camisetas, aproveitando para dar um sumiço nas que já estão pedindo aposentadoria? Não, deixa isso pra depois, nem é tão importante agora. Relaxa. Então decidi cozinhar, mas tinha que ser algo simples e bem nutritivo e lá fui eu pro meu arroz integral com lentilha feito na panela de pressão - meia hora e está pronto, não tem como errar. Basta um copo de arroz, um de lentilha, uma cebola picadinha, um cubo de caldo de legumes e cinco copos de água. Meia hora na pressão e enquanto cozinhava recolhi as roupas da viagem que lavei segunda-feira e que estavam esturricando no varal, joguei no sofá pra guardar depois.

 

Almocei esfomeadamente e depois de um cochilo na frente da televisão aproveitei para limpar minhas caixas de emails e responder com calma pessoas queridas que muitas vezes respondo com pressa, no piloto automático mesmo. E quanta recordação boa, quanto carinho contido em cada "mensagem enviada com sucesso". Assisti mais um pouco de televisão, aqueles besteirols da tarde, naveguei sem rumo, lavei a louça acumulada desde segunda-feira, aparei os pelos do peito, cortei o cabelo eu mesmo com a maquininha, alternando os pentes, estou me tornando especialista nisso mas sempre peço para alguém validar minha arte, tomei um banho delicioso, guardei as roupas de qualquer jeito no armário, camisetas misturadas com meias e bermudas mesmo, enfiava nas gavetas mais vazias e um dia tiro pra organizar de um jeito melhor. Ordem no caos!

 

Voltei pra cozinha, fiz uma sopa bem quente e depurativa, pra limpar o organismo: um punhado de inhame e cará, batata e cenoura cortados em cubos pequenos, caldo de legumes, cheiro-verde e cebolinha (que minha mãe costuma congelar já picadinhos em copos de requeijão). Meia hora na pressão e ficou uma delícia! E agora estou aqui, pensei que estava ouvindo o jogo do Brasil com o Uruguai (que fez um gol que eu nem me liguei, será que foi aquele delicioso do Lugano? rs......) e escrevendo sem medo de ser feliz!

 

Dei uma revisada antes de publicar, para ver se não cometi nenhum erro absurdo (hoje a tarde li um blog que leio sempre, mas o querido usava o termo "impecílio" quando o correto é "empecilho"...) e eis que alguém fez um gol pro Brasil. Será que foi aquele delicioso do Kaká? Que nada, foi o Luís Fabiano... Luís quem? Mas não importa, gol é gol...

 

O que importa é que, com ou sem Lugano, com ou sem Kaká, com ou sem um amor pra chamar de meu, tive um dia do jeitinho que eu queria. Bem sossegado. Estava com uma saudade imensa de mim mesmo, eu me merecia num dia ensolarado como esse, numa noite com uma lua linda que vai estar cheia muito em breve. Amanhã corro atrás do que deixei de fazer hoje, mas amanhã será um novo dia. Estou sem sono e ainda vou me curtir mais um pouco, afinal ainda é cedo, amores!

 

É bom gostar da companhia da gente, não é mesmo?

Sorria, você está sendo contagiado...

 

Um abração.

Boa noite!


Escrito por Tiago Quintana às 22h43

Misericórdia

Domingo , 18 de Novembro de 2007

 

 MARIZA - Ó gente da minha terra...

 

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

 

 

Sem misericórdia, mas com um carinho absurdo, dedico essa canção para as pessoas que fizeram imensamente alegre meu final de semana, algumas que há algum tempo fazem mais feliz e mais leve a minha existência, aos meus companheiros dessa jornada da alma, meus amigos mais que queridos :

 

Paulo e João, Ronald e Leandro, Jonas, Rodrigo,

Carlota, Adalberto, Nei e Adriano, Ivine e John,

Robert e Daniela, Chandra e Sônia, Zezé e Michele,

Otávio, Serginho, Edilene, Lili e Nayana.


E viva a nossa festa! 


Escrito por Tiago Quintana às 00h01

Família no armário

Domingo , 11 de Novembro de 2007

 

 

Eu tenho aprendido muito nas reuniões do Purpurina, ironicamente tenho aprendido bastante com garotos com idade para serem meus filhos. E também com os demais voluntários, pessoas com visões de mundo distintas da minha. E sob comando de uma "mocinha sênior" alguns temas discutidos em nossas reuniões ampliam também a minha visão, quem é que disse que a gente não pode mudar de idéia sobre algum assunto? 

 

Mês passado a gente trabalhou a questão de gênero e identidade sexual e esse mês foi para falar sobre famílias alternativas, basicamente ouvir relatos de gays e lésbicas que desejaram construir uma família, tendo ou adotando crianças. Mais uma vez o assunto rendeu e me trouxe questionamentos.

 

Eu diria que no fundo eu nunca desejei ser pai, ter filhos para cuidar e educar, embora reconheça esse meu talento e prazer em lidar com crianças e jovens, e por mais tentadora que seja a idéia de ter alguém para amar de forma tão linda. Mas há uma diferença enorme entre gostar de crianças e desejá-las por perto 24hs por dia. Eu sempre digo que ser "tio" é muito mais fácil, mais econômico e que as responsabilidades são muito menores, é mais tranquilo ser um exemplo positivo para uma criança querida quando o tempo de convivência é doação apenas e não obrigação. Nossas deficiências ficam menos visíveis que as de um pai ou mãe que tem a árdua tarefa de educar permanentemente.

 

Como nos diz a nossa educadora Edith Modesto": filho é bom sim, mas dura muito tempo.

 

E a mesma Edith, criadora do GPH - Grupo de Pais de Homossexuais e mentora do Projeto Purpurina, especialista em relacionamento entre pais e filhos homossexuais, usa algumas vezes um termo que merece reflexão: "Quando um filho homossexual sai do armário, seus pais é que entram nesse armário".

 

Eu não estou dizendo que essa é uma máxima, uma verdade absoluta, pois há tempos deixei de acreditar em máximas e absolutismos. Mas não devemos negar que esse é um fato em boa parte dos lares que conhecemos. A opção familiar de não falar sobre assuntos que geram controvérsias é muito comum.

 

Uma das voluntárias do Purpurina nos conta que sua família assimila bem sua sexualidade, respeita e participa do seu relacionamento com uma companheira, admiram seu trabalho incansável como militante, respeitam a educação que ela e a companheira dão para as duas filhas do casal (cada uma delas teve uma filha em um relacionamento heterossexual anterior).

 

A única coisa que seus familiares não permitem, que não aceitam de forma alguma, é que ela dê entrevistas mostrando o rosto ou usando o nome verdadeiro. Ela mesma já não liga, há tempos se reconhece como lésbica e se sente tranquila em dar entrevistas, mas não o faz em respeito à mãe. Já a mãe no fundo o que teme é a reação das vizinhas, do padre, do açougueiro e do cobrador de ônibus.

 

E há casos, inúmeros, em que a família sabe claramente o que acontece na vida íntima e afetiva dos seus filhos, só que apesar dos seus filhos não grilarem em conversar sobre o assunto, e até de provocarem situações de diálogo, não se fala nada sobre o tema! Existem mães e pais que falam claramente: nós já aceitamos você, já respeitamos essa sua característica, é sua opção e tudo bem, mas não vemos razão alguma em falarmos sobre o assunto, já que nada vai mudar mesmo.

 

Ou seja: o filho saiu do tal armário e encarou a família, assumiu a sua identidade sexual arcando com todo o ônus dessa opção, a transparência, mas a família aproveitou o espaço vazio e se enfiou no mesmo armário onde ele esteve escondido, com um medo ainda maior da sociedade. E isso é bem pior, pois a falta de informações precisas e vindas do próprio filho, gera um vácuo na mente deles, em geral ocupado por pensamentos que causam um distanciamento ainda maior.

 

Minha história com família foi mais ou menos assim: eu tinha uns 20 anos e um ex-namoradinho (sem tom pejorativo no termo que usei, aconteceu que nos conhecemos e ficamos sete finais-de-semana juntos e éramos bastante jovens), se sentiu no direito de ligar em minha casa e contar para minha mãe do nosso romance... Ato desesperado e infantil, pois no fundo ele queria era voltar comigo, queria namorar sério, mas eu estava naquela de "ficar" e conhecer gente nova, acho que ainda não tinha muito claro o rumo que daria à minha vida.

 

Minha mãe ouviu atentamente, ficou chocada e não quis falar comigo. Ainda hoje me lembro da sua cara de pavor ao final da ligação. Ela preferiu contar pro meu pai, que na manhã seguinte me pediu que viesse do trabalho direto pra casa para uma conversa séria. E nessa "conversa séria" eu abri o jogo totalmente, sem pudores, sem medo de encarar a realidade. Ficamos mais de 4 horas conversando e eu não escondi nada, contei o que achei que deveria e respondi com a verdade tudo o que ele me perguntou. Teve hora que ele me pedia para dar um tempo para digerir, ele repassou depois para minha mãe apenas o que achou importante.

 

Pois bem, crise "brabíssima" em casa e que durou uma eternidade de vários dias, meses, anos... Meu pai se abateu, se deprimiu profundamente. Ficou quieto, pensativo, sofria mesmo e isso me entristecia muito. Ele perdeu peso, perdeu o sorriso e o sono. Mas não ficou agressivo ou se fazendo de vítima não. Apenas deixava claro que estava decepcionado, senão comigo, com aquela situação.

 

Já a minha mãe... Num primeiro instante ficou agressiva, achando que aquilo era falta de vergonha na cara, um homem se deitar com outro como se fosse mulher (palavras dela...). Num segundo instante ficou se vitimizando, com frases do tipo: "onde foi que eu errei"... Depois quis me mandar pra terapia, para eu me curar. Eu me recusei e sugeri que ela fosse pra terapia para se curar daquele preconceito, daquela falta de visão do mundo. Ela aceitou, foi ao psicólogo, começou a ler sobre o tema e se livrou da culpa, se eximiu de responsabilidade e se deu alta. Melhor assim!

 

Mas não se falava sobre o assunto. Eu namorava, eles conheciam meu namorado, mas essa palavra não era usada, se referiam a ele como um amigo apenas. E assim foi durante uns 6 anos, até que eu saí de casa e fui morar sozinho num apartamento próprio, próximo ao meu trabalho. A distância física e o convívio menos regular acabaram nos aproximando. Mas falar sobre vida afetiva era ainda um tabú.

 

Passados dez anos eu me casei com um rapaz, digo que casei pois ele foi morar comigo, fato inédito até então. E as coisas passaram a ser faladas, ele passou a ter um nome e ficou claro para todos nosso relacionamento. Quando acabou, três anos depois, ele foi à casa dos meus pais para se despedir, para agradecer pelo carinho que recebeu e contar que ainda gostava de mim, que sabia que havia errado feio e que se arrependia, mas que ainda acreditava que um dia eu repensaria. Minha mãe me contou isso depois, que ficou com pena e que ele parecia bastante honesto, meu pai perguntou se não era o caso de eu relevar algumas coisas e dar uma nova chance pois ele parecia ser um cara bacana que gostava muito de mim.

 

Dez anos para meu pai abrir a boca! 

 

Hoje a nossa relação é boa. Há dois anos eu voltei a morar com eles, pra simplificar a vida, dar e receber um carinho que é muito importante para todos. Minha mãe sempre me fala que eu estou muito quieto e que preciso arranjar um namorado, me pergunta sobre amores que eu tive no passado. E um dia eu contei pra ela que há cerca de dez anos, antes desse meu casamento, eu conheci um moço pelo qual me apaixonei perdidamente, mas que a relação não decolou por razões diversas e acabamos nos tornando grandes amigos.

 

Uma vez ele veio pra São Paulo resolver alguns assuntos e ficou hospedado na minha casa, no dia seguinte era aniversário do meu pai e ele foi almoçar comigo e com minha família toda, tios, primos e todo mundo pensou que ele fosse meu namorado...

 

E minha mãe me chamou de lado, me perguntou se a gente estava namorando. Eu falei que infelizmente não, que éramos grandes amigos apenas, que ele era aquele rapaz mineiro que eu conheci em Salvador...

 

E ela, em tom de desapontamento, me disse: Que pena, vocês formam um lindo casal! E esse moço parece ser um rapaz muito bacana, fora que ele é lindo! Será que não tem chance mesmo? Ele olha pra você de forma muito afetuosa, intuição de mãe não falha... Você não é bobo não, meu filho!

 

Esse ano, recentemente, meus pais precisaram viajar pra cidade onde ele mora, eu lembrei disso e liguei pra ele perguntando se não se incomodaria em dar algum suporte pros meus pais, em caso de alguma emergência. E ele, lindo e afetuoso como sempre, um verdadeiro príncipe, teve uma reação imediata: Então eu vou passar o dia com os seus pais! Gosto muito da sua mãe, do seu pai, estou com o sábado livre, ficarei o dia todo com eles.

 

E assim aconteceu! E olha que era a quarta ou quinta vez que se viam. E meus pais contam que passaram um dia maravilhoso ao lado dele, que ele foi super atencioso, bastante carinhoso, voltaram tecendo elogios e mais elogios, eu até estranhei tanta abertura nos comentários dos dois. Bom, eu devo isso em partes à firmeza com que eu busquei me posicionar perante eles e também ao apoio do GPH - Grupo de Pais de Homossexuais, grupo estruturado e coordenado pela Prof. Edith Modesto e que vem há tempos reaproximando os pais de seus filhos homossexuais.

 

Agora imaginem que a minha mãe, indiscreta que só ela, falou para esse meu amigo querido, que adoraria se ele viesse a namorar comigo algum dia, nem que fosse quando a gente estivesse mais velho... E olhos nos olhos completou:

- Você é o genro que eu pedi a Deus! Eu acho que você e meu filho poderiam ser grandes companheiros para essa vida, por que vocês não pensam seriamente sobre isso? Vou ficar muito feliz...

 

Eles estavam se despedindo e com os olhos marejados ela lhe deu um abraço bem apertado.

Isso quem me contou foi ele... Ela apenas havia me contado que falou algo pra ele que o fez chorar... Mas ele não me contou que chorou não... Viram como eles são cúmplices?

 

O que eu quero dizer, e isso é um recado para os meninos do Purpurina que lêem meu blog, em especial para um garoto que está questionando as atitudes da mãe, é que o mesmo tempo que se encarregou de tirar a gente desse tal de armário, haverá de tirar também os nossos pais. Calma!

 

Enquanto isso não acontece, a melhor opção é se manter firme, lúcido e equilibrado, não provocar situações de ira, não se render às provocações que surgem a cada instante. Afinal, se foi difícil pra muitos de nós assimilar que éramos diferentes no que se refere à sexualidade, se foi complicado pra gente, imagine pra eles então!

 

Procure pensar positivo, ter paciência, muita paciência!

Tenha a certeza que um dia a sua mãe ficará doce, bem doce.

 

Doce como a Mel... Se bem que essa já nasceu doce...

 

Beijos, excelente semana!

Fiquem com Deus! 


Escrito por Tiago Quintana às 11h09

oi...

 

Tenho sentido uma vontade imensa de ficar só nesses últimos dias. Vontade de ficar no meu canto, eu e meus livros preferidos, relendo aqueles trechos que em algum instante da vida me trouxeram conhecimento e alento, ficar quietinho no meu conforto, eu e meus discos queridos, ouvindo as canções que me remetem a lembranças boas de quanto as coisas eram mais simples, ou de quando eu era menos exigente e minha carcaça não era tão dura, reviver nostalgicamente alegrias e dores de amores passados.

 

Mas não dá para ser assim.

Então liga o piloto automático e segue na batalha!

 

Essa semana tive pouco tempo pra mim, e menos ainda para esse blog, e desde a minha última postagem do clip do Bronski Beat (digamos que em instante melancólico...) praticamente não consegui aliar tempo e inspiração para mais nada.

 

Que semaninha! Pois é, tem dia que de noite é assim mesmo, não cabe reclamar. É chegar em casa cansado, tomar um banho e ir direto pra cama, na esperança de quem sabe acordar cedo no dia seguinte com pique para tocar adiante as encrencas que a vida nos apresenta.

 

E a semana que entra já começa complicada, segunda é aquela função de atravessar a cidade pra psicanálise, isso me consome metade do dia, tenho consulta médica no meio da tarde e depois volto correndo para preparar uma sopa para a noite, as 19hs me reúno com amigos e damos início a uma vigília que vira a madrugada.

 

Na terça revisamos uma palestra que vamos fazer na quarta-feira em uma empresa, sobre hábitos de vida e alimentação saudável, enquanto preparamos alimentos naturais para a degustação que fazemos após a palestra. Pauleira das grandes, dessa vez estimamos em 100 pessoas, cinco grupos ao longo do dia. Ufa!

 

Missão "comprida", seguimos na quarta a noite pro templo em São Roque, aniversário de 2 anos do nosso grupo de estudos da supraconsciência, a turma da ayahuasca, mais função culinária, mais trabalho voluntário, mais correria pra comemoração da quinta a tarde, nova vigília virando a madrugada.

 

E na sexta-feira sigo para enfim descansar numa chácara, onde fico até terça, que é feriado municipal em São Paulo - Dia da Consciência Negra. Vou levar meus livros, alguns discos... Seremos uns 30 queridos, mas como passada a função é cada um na sua sem ficar pentelhando os demais, quem sabe lá eu consiga alguns instantes para ficar sozinho...

 

Bons feriados!

 

Abração


Escrito por Tiago Quintana às 10h07

run away...

Sexta-feira , 02 de Novembro de 2007

 

You leave in the morning
With everything you own
In a little black case
Alone on a platform
The wind and the rain
On a sad and lonely face

Mother will never understand
Why you had to leave
But the answers you seek
Will never be found at home
The love that you need
Will never be found at home

Run away, turn away, run away, turn away, run away.
Run away, turn away, run away, turn away, run away.

Pushed around and kicked around
Always a lonely boy
You were the one
That theyd talk about around town
As they put you down

And as hard as they would try
Theyd hurt to make you cry
But you never cried to them
Just to your soul
No you never cried to them
Just to your soul

Run away, turn away, run away, turn away, run away.
Run away, turn away, run away, turn away, run away.

Cry , boy, cry...

You leave in the morning
With everything you own
In a little black case
Alone on a platform
The wind and the rain
On a sad and lonely face

 


Escrito por Tiago Quintana às 22h47

Purpurina (novembro)

Quinta-feira , 01 de Novembro de 2007

 

Domingo de finados, na Vila Madalena

Mais uma edição: Projeto Purpurina

 

Data: 04 de novembro (Próximo domingo)
Local: Escola Rainha - Rua Rodésia, 213 - Vila Madalena - SP
Horário: 15hs, saida do Metrô Vila Madalena

Tema: Familias homoafetivas 
 

Um abraço, até lá.  


Escrito por Tiago Quintana às 10h13


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