BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

peraí...

Terça-feira , 29 de Janeiro de 2008

 


Escrito por Henrique às 14h48

envelheço na cidade

Sexta-feira , 25 de Janeiro de 2008

 

Minha mãe me conta que veio pra São Paulo especialmente pra eu nascer, não queria que eu nascesse numa cidade do interior, e também para reencontrar-se com meu pai no aniversário dele, três dias antes do meu nascimento. Ela conta que moravam numa cidadezinha no interior do estado, que se casaram depois de namorar alguns anos, que ela logo engravidou e que meu pai veio para a capital procurar emprego melhor, pois onde eles estavam não havia muita perspectiva de nada que não fosse trabalhar na roça. Ele veio, conseguiu trabalho com carteira assinada e logo sinalizou para que ela viesse também, comigo na barriga. Naquela época não tinha email não, era carta e que demorava um absurdo pra chegar. E telefone praticamente ninguém tinha.

 

E ela conta também que, por conta da viagem longa, das muitas paradas, daquele entra e sai de gente e bagagem, que eu fiquei muito agitado; com aquela coisa do chacoalhar do trem e como ela sempre foi muito enjoada, passou mal demais a viagem toda, vomitou, grávida que estava de quase oito meses. E com a gente vinha ainda uma tia idosa (idosa pra aquela época), que ajudou muito e atrapalhou também, e que eu tratei por vó desde criança, moramos colados durante década e meia, até que ela se foi, seis semanas depois de ficar viúva.

 

Interessante lembrar essas histórias agora. Mas vamos lá... O que quero dizer é que por conta dessa viagem eu acabei antecipando meu nascimento, previsto com as ferramentas da época para o final de janeiro. Minha mãe conta que a gravidez toda foi muito tranqüila, mas depois da viagem eu comecei a me mexer muito, chutar, ansioso que estava por conhecer essa terra linda, da garoa à época.

 

O ponto é que por conta desse mimo da minha mãe, eu nasci em São Paulo. Os médicos recomendaram que ela não fizesse a viagem com a barriga daquele tamanho, mas para ela passar natal e ano novo sem o marido e ter o filho sozinho, vir depois comigo no colo seria pior. Que bom que ela pensou assim, pois embora adore as minhas raízes caipiras, e bota caipira nisso, a cidadezinha onde fui gerado é no interiorzão do estado já na fronteira com o Mato Grosso do Sul, amo ser paulistano.

 

Amo essa cidade desde sempre e mais ainda a cada dia. Quem é daqui sabe do que eu estou falando. E quem não é também sabe. E tem muita gente que veio de todo canto do planeta e se sente paulistano também, essa cidade faz não sei o que com a gente.

 

Mas ser Paulistano, de verdade, é muito chique.


Escrito por Henrique às 21h31

fale mal de mim

Quarta-feira , 23 de Janeiro de 2008

 

 

 

 ♪♪ AUTORAMAS ♪♪

Você fica irritado comigo só porque você me acha mais bonito que você
Você já fica todo nervoso quando te dizem que eu sou mais talentoso que você
Sua vida anda mesmo sem graça
E a única saída que você acha é me difamar
Isso até que veio bem a calhar
Eu estava precisando de alguém para me divulgar

Fale mal de mim, fale o que quiser de mim
Mas por favor não deixe que em nenhum momento
Eu deixe de estar no seu pensamento
Fale mal de mim
Fale o que quiser de mim
Porque todo mundo que te conhece
Sabe que é isso que você merece

Minha reputação continua intacta apesar de todas essas historinhas que você inventou
E se a vida pra você é uma disputa, lembre-se também que pra todo jogo há um perdedor

Fale mal de mim, fale o que quiser de mim
Mas por favor não deixe que em nenhum momento
Eu deixe de estar no seu pensamento
Fale mal de mim
Fale o que quiser de mim
Porque todo mundo que te conhece
Sabe que é isso que você merece

Você sabe que eu vencerei
Que eu triunfarei
Isso incomoda você
Isso irrita você
Sabe que eu vencerei
Que eu triunfarei
Isso incomoda você

 


Escrito por Henrique às 11h29

Sebastian

Domingo , 20 de Janeiro de 2008

 

Estava pesquisando sobre São Sebastião (o mocinho da foto abaixo) e descobri que muitos autores antigos reforçam a hipótese de que São Sebastião teria sido homossexual. Incluídos aqui Oscar Wilde e Garcia Lorca, sendo que Wilde, durante o cárcere, adotou o heterônimo de Sebastian. 

 

 

 

Alguns historiadores dizem que muitos dos que hoje são santos ou beatos teriam levado uma vida desregrada, que sempre houve esse lance de orgias e surubas entre homens, incentivada durante séculos em muitas culturas, uma putaria só, que a igreja em algum instante decidiu combater.

 

E quem é que não conheceu, nos tempos modernos, alguma biba desregradanada que por alguma razão pessoal sossegou o croquete, constituiu família nos moldes tradicionais, papai, mamãe e filhinhos, macarronada e Silvio Santos aos domingos e hoje passa a milhas de distância dos locais suspeitos? E ainda aponta o dedo cuspindo no prato que deu? Eu conheço alguns.

 

 

Mas voltando ao Sebá, existe um filme (SEBASTIÃO, de 1976) cujo desenvolver nos apresenta fatos que fazem presumir a homossexualidade do santo, e principalmente uma tradição na história dos homossexuais mundo afora indicando São Sebastião como nosso guardião e protetor.

 

Aqui no Brasil, o sempre pioneiro GGB - Grupo Gay da Bahia, institui-o oficialmente como protetor da comunidade há alguns anos, e é lógico que isso despertou a ira da igreja católica. Não só o instituiu como padroeiro, como ainda elegeu o Mosteiro de São Sebastião dos Beneditinos da Bahia como o Santuário Homossexual do Brasil, com base em documentos históricos que validam essa ação, para desespero da igreja.

 

Um Santo Gay? Demais pras cabeças pequeninas do Vaticano e dos seus representantes no mundo, afinal São Sebastião não tem tempo para cuidar daqueles cujo amor não ousa pronunciar o seu nome, ele é de verdade o grande protetor da humanidade contra a fome, contra a peste e também contra a guerra, mazelas contra as quais a igreja vem, de forma exemplar, lutando com todas suas forças desde sempre, e não teria tempo para se preocupar com a gente! Acorda!

 

Que mundo é esse em que vivemos? 

Existiria pois, a tão propagada paz, o mundo sem guerras ou injustiças que desejamos? Não existe... Padroeiro também que é do Rio de Janeiro, seria então a cidade não apenas um paraíso de belezas naturais; isso só para exemplificar o caos no mundo em que vivemos! VivaRio, São Sebastião no Rio de Janeiro... Viva São Sebastião!

 

 

Mas por qual razão teriam escolhido justo o São Sebastião e inventado essa história de que o fofo seria gay? Seria pelas suas vestes diminutas e pelo corpão sarado, no melhor estilo "gogoboy" nos carros das paradas gays? Seria pela sua carinha de "Lolito" pronto pra sessão de fotos ou ainda pela sua pose, um tanto quanto afeminada? Que maldade desse povo careta! Blasfêmias do mundo moderno à parte, descobri que durante toda a Idade Média, os sodomitas (como eram chamados os gays) já cultuavam São Sebastião como sendo um santo gay.

 

E onde há fumaça, meus queridos, há fogo!

 

Ele teria vivido no século IV depois de Cristo e teria sido amante do imperador Diocleciano. Será? Isso não quer dizer que fosse homossexual não, apenas que era amante do imperador! Quem de nós que nunca dormiu noites e noites com um garoto ardente, com a testosterona gritando e com fogo na tarraqueta, mas que em hipótese alguma se sentia homossexual, que atire a primeira pedra!

 

 

Descobri que ele era órfão de pai e que foi criado pela mãe, cristã fervorosa... Mas parece que ele se converteu ao cristianismo, possivelmente por conta de alguma campanha homofóbica à época, com medo de ser condenado à fogueira por seduzir um homem poderoso, afinal a igreja haveria de proteger o imperador, carente coitadinho que não resistiu aos encantos do jovem fruta, e a corda desde aquela época já arrebentava do lado mais fraco!

 

Mas acabou, ainda assim, sendo martirizado! O motivo do martírio do santo, segundo alguns autores, teria sido sua recusa em continuar tendo relações sexuais com Diocleciano, depois da sua conversão ao cristianismo. O imperador não aceitava o final do romance e foi cruel, naquele raciocínio de que se não é mais meu, então não será de mais ninguém!

 

E há uma outra linha na biografia do santo, onde consta que era apenas o soldado preferido do Imperador Diocleciano, um dos imperadores mais homossexuais de Roma, e segundo o diretor do filme citado o soldadinho recusou-se a amar o seu superior, preferindo manter-se fiel ao seu amante. Ele vivia uma identidade secreta e aos poucos foi sendo tirado do armário, quando indagado pelo imperador não teve dúvidas e se assumiu... Confiou na maricona e se fudeu!

 

 

Essa fidelidade teria sido a causa de seu flagelo. Ou seja, o soldado já estava muito feliz com seu companheiro e nunca teve nada com o imperador! Confiou na mona e a mona uó, infeliz, convocou os arqueiros da Mauritânia e ordenou que amarrasem o soldado numa árvore e o flechassem, sem atingir os ógãos vitais, para que morresse de forma lenta... Cruel essa bicha, gente! Acontece que o moço era forte e foi resgatado por uma tal de Irene, que era viúva de outro mártir (será que Caio Fernando Abreu se inspirou nela para escrever aquela crônica?) e que o auxiliou para que se recuperasse... Será?

 

E então, num dia 20 de janeiro, quando ocorria uma festa em homenagem à divindade do imperador, o soldado surgiu diante dele e o enfrentou, acusando-o de crueldade contra os cristãos. Imaginem então a bonita, no dia da sua festa, ser delatada por aquele que a rejeitara... Ficou louca e mandou que o matassem alí mesmo, sem piedade! Pois os demais soldados, lindinhos e obedientes que só eles, o cobriram com golpes e mais golpes de bastão e tacos de beisebol até que morresse, e seu corpo foi jogado em trajes menores no esgoto da cidade.

 

Que história, não é?

 

* * * * *

 

E para encerrar, nas minhas pesquisas encontrei

um manifesto do GGB - Grupo Gay da Bahia,

com partes que reproduzo a seguir:

 

Pedimos a São Sebastião que seja nosso advogado

para a obtenção de três graças especiais:


1] O fim da violência anti-homossexual: as mesmas dores que o mártir São Sebastião sentiu ao ter seu corpo vazado pelas flechas, estas mesmas dores continuam a machucar ainda hoje os homossexuais: a cada três dias um gay, travesti ou lésbica é barbaramente assassinado, vítima da homofobia, mais de 170 homicídios cometidos somente em 1999;

 

2] Que a Igreja Católica e todas as religiões peçam perdão aos homossexuais pela perseguição, fogueira, inquisição e intolerância como ainda hoje tratam os homossexuais; que aceitem e abençoem o amor homossexual pois "onde há amor, Deus aí está"; que instaurem pastoral específica para os homossexuais, pois também somos filhos de Deus

e Templos do Espírito Santo;

 

3] Que São Sebastião, tradicional patrono contra a peste, inspire os cientistas e pesquisadores a encontrar rapidamente a cura da Aids, afastando para sempre o fantasma desta epidemia de nossa comunidade, ajudando aos soropositivos e doentes de Aids a vencer a dor e a ter vida longa e saudável.

  

Pesquisar sua vida foi fascinante. Benditos sejam o Google e os muitos blogs bacanas que visitei, benditas sejam ainda a velocidade (e quem sabe a veracidade) da informação! Muitos outros detalhes interessantes poderiam ter sido incluídos nesse texto, mas é muito fácil saberem mais.

 

Basta pesquisar!


Escrito por Henrique às 22h35

no silêncio

Quinta-feira , 17 de Janeiro de 2008

 

Eu gosto muito de conversar com as pessoas, mas ainda sou daqueles pentelhos que têm o péssimo hábito de olhar nos olhos enquanto conversa, na minha compreensão do mundo esse é um sinalizador do interesse do outro no assunto e nas minhas opiniões a respeito.

 

Não gosto tanto de conversar com pessoas que não me olham nos olhos, e como sou direto quando tenho alguma informação para passar, e nem sempre as pessoas querem ouvi-las, consigo assimilar as dispersões como timidez mesmo, dispersões momentâneas são naturais, outras vezes podem ser necessárias para expressar certo desconforto ou constrangimento com o assunto que está sendo analisado, ou ainda expressam o desinteresse alheio com o tema, ou ansiedade extrema mesmo. 

 

E não me incomodo em interromper uma explanação que estiver fazendo se perceber o desinteresse do interlocutor. Já fiz isso diversas vezes e se precisar faço novamente. E mais ainda, como conheço muita gente, e nos grupos que integro há pessoas evasivas e dissimuladas, se precisar chamar a atenção de alguém para uma mensagem que acho importante passar e fazer com que o outro efetivamente a ouça (sabendo que fazer compreender já é outro papo...) uso alguns artifícios para alcançar meu intento... Sou um cara grande e posso abraçar a pessoa enquanto falo, abraçar de lado e apertando mesmo que é para não dar opção de fuga, abraçar de frente, tipo entrelaçando, para forçar o foco em mim e limitar o ângulo de visão...

 

O olhar é o limite e estou bastante atento a ele, sempre. Tenho amigos queridos com quem desenvolvo longos raciocínios, muitas vezes com o carro em movimento e é interessante como as conexões dos olhares se criam através de espelhos retrovisores, sinal de respeito e de que há, de fato, uma interação. A gente cria o ângulo certo para passar nossos sentimentos e é nesse olhar que se compreende a assimilação do outro.

 

Não gosto mais de monólogos, não sou dono nem da palavra e muito menos da verdade (alguém sabe o que é essa tal verdade?) e quando interrompo alguém para fazer alguma consideração, tenho a gentileza de devolver a palavra retomando do ponto em que interrompi: você estava falando que... Ou seria esse um sinal de respeito, ou mais ainda, um sinal de que estou aprendendo a controlar as minhas ansiedades, que também são muitas?

 

Há diálogos silenciosos, que podem proceder exclusivamente por olhares. Com ou sem expressão facial escancarada, basta por vezes uma troca de olhar para que longas frases sejam pronunciadas, com direito às réplicas, tréplicas e um rol de considerações finais.

 

Daí aquela frase atribuída ao nosso mestre Mário Quintana que diz que "Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação"...

 

E quando a conversa é por telefone então? Não gosto muito de falar ao telefone, mas é inevitável e prefiro que sejam breves, mas tenho queridos tão ocupados que me ligam sempre do carro, durante algum trajeto... E as conversas são longas, muito longas mesmo e muitas vezes com silêncios que dão a tônica do sentimento.

 

Pois há silencios que falam muito mais que olhares ou frases e mais frases.


Escrito por Henrique às 23h45

descanse em paz

Segunda-feira , 14 de Janeiro de 2008

 

Direto do Tunel do Tempo: Segundo domingo do mês de janeiro de 1989 e eu, jovenzinho de tudo, fui bater cartão na ShockHouse, uma extinta boate podreira aqui de Sampa, bairro do Bixiga, abafada prá cacete com um quintalzinho arejado, frequentada por "entendidas" (meninas e mulheres em geral fortes) e "entendidos" (meninos e homens em geral frágeis), lugar que apesar de podreira marcou muito a minha geração. Um lugar muito divertido, shows das "trans" no térreo e MPB "é isso aí" no primeiro piso.

 

 

E lá pelas tantas, aquele menino bonitinho que insistia em me encarar, e que estava levemente alterado por algumas doses de Campari, cheirando um Marlboro lascado, me segura pelo braço, me agarra sem dó e nem piedade, me tasca um beijo daqueles de fazer tremer a terra e tremer o mar. Pois nem o gosto de cigarro foi suficiente para me fazer resistir àquele beijo e àqueles olhos verdes num rosto lindo e com uma calvície que começava a mostrar a força da herança genética. Segundos, minutos ou horas depois e ele me solta, olha bem fundo nos meus olhos e me diz, com aquela convicção que só quem ama de verdade tem:

 

- Você é lindo, mas tem uma cara de safado... E eu adoro homem safado! Quer casar comigo? Mas olha, se você aceitar eu serei seu eternamente, serei fiel de verdade, mesmo que você não queira ser e nunca vou te cobrar nada, te darei os céus e a terra e um dia a gente, já bem velhinho, vai se lembrar desse primeiro beijo! Topas?

 

E foi assim, dessa forma arrebatadora, que iniciamos um romance que durou um ano. A gente começou devagar, sem muita pressa, foi se conhecendo como tem que ser. Eu tinha 22 e ele tinha 23, morávamos em bairros próximos e nos víamos quase todos os dias, sábado pela manhã eu ia pra casa dele, a gente lavava meu carro, de bermuda e camiseta na rua mesmo, na porta da sua casa, eu almoçava com seus pais, com seus irmãos e seus avós, ele dividia comigo também os seus amigos de infância, todos héteros e que admiravam a relação da gente.

 

Eu enchia o saco pra ele parar de fumar e ele me dizia que eu devia encarar a vida com mais leveza, que fumar era dos males o menor e vez ou outra ainda aparecia com um cigarrinho de maconha que era pra eu ficar ainda mais puto da vida e soltar meu discurso careta com ares de "eu sei o que falo"... Eu enchia o saco pra ele parar de beber e ele me dizia que a vida era muito curta para ser levada a sério, falava isso de forma tão lúcida e tão leve que eu até acreditei, e passei a achar alguma graça num pilequinho vez ou outra e até uns traguinhos no cigarrinho fedido eu arrisquei, mas tossi e me senti tonto, fiquei sonolento e não gostei não. Se bem que quando a gente estava no motel, na nossa intimidade, esses pequenos prazeres eram até que bem legais... Não que ele bebesse muito e sempre, eu é que era chato e puritano, pentelho mesmo...

 

Ele fazia uma faculdade de quinta categoria, trabalhava de caixa num banco qualquer, ganhava uma merreca que pagava a faculdade e o carnê do crediário, gostava de se vestir bem e não tinha muitos planos não, nem de ter um emprego melhor, nem de ter carro ou casa própria. Para ele bastava o que já tinha... Eu não fazia faculdade pois achava melhor não fazer qualquer coisa e prestava vestibular apenas pras melhores, mais tarde é que consegui um Mackenzie, que nem era tão primeira linha assim, trabalhava como técnico em telecomunicações numa empresa de tecnologia e ganhava um salário bem bacana, tinha meu carro semi-novo, planejava ter um apartamento e morar sozinho, viajar o mundo e ser cada vez mais bem sucedido, ter cada vez mais conforto...

 

Ele vivia assim feliz, um dia de cada vez e me tratava como um príncipe, como um rei, me dava muito carinho e muita atenção, não me cobrava nada e não me enchia o saco em instante algum, era tão compreensivo e tão atencioso que pensava que jamais iria me incomodar. Já eu vivia assim, com um pé no passado e outro no futuro, lógico que não sobrava o pé pro tempo presente... Mas me sentia feliz, buscando o equilíbrio entre a ansiedade e o saudosismo, pensando sempre em recuperar um tal de tempo perdido. Naquela época ainda não havia aquele moço que cantava que "temos todo o tempo do mundo...".

 

Mas eu fui me incomodando com aquele marasmo dele, aquele bem estar nada me afeta dele que me incomodava, me incomodando com a sua tranquilidade, me incomodando com a sua falta de vontade de criar condições melhores para si e para nós, e de brigas em brigas, originadas sempre nas minhas carências e nos meus equívocos de confundir uma auto-estima saudável com narcisismo, com as minhas confusões de ego inflado de me achar o reizinho da cocadinha pretinha, o doninho do mundinho, quando no fundo era essa a forma de mascarar minhas inseguranças, me enchi tanto dele em mim e de mim nele que terminei o romance. Já bastava!

 

E ele foi inteligente, compreendeu, ficou na dele sem me encher o saco e teve a certeza que o amor (dele) era maior que as confusões (minhas) e que mais cedo ou mais tarde a gente retomaria o relacionamento, me chamava vez ou outra para dar uma volta de carro e a gente acabava (quase sempre) num motel. E o sexo, que já era bom, ficou melhor ainda, mais intenso, mais quente, tão melhor que eu passei a acreditar que ter uma amizade colorida com ele era melhor que tê-lo como um namorado. Ele nunca pedia textualmente para voltarmos, deixava isso claro nos olhares e nos toques, e eu me fingia de tô nem aí... Sextas, sábados ou domingos, era eu entrar numa boate para em seguida avistá-lo, sempre com um cigarrinho na mão e um copo na outra, sempre com o olhar sedutor que me cativara no ano anterior, e que para ser bem honesto mexia ainda comigo, e muito. Mais tarde soube que não havia coincidência e sim que a minha irmã se encarregava de ligar pra ele dando o meu roteiro, torcedora que era de que aquele romance retornasse... Como me disse ela depois: vocês formavam um casal lindo e ele te amava de verdade, da forma mais linda que alguém pode amar outro alguém.

 

Mas eu queria ganhar o mundo, um amor só não me bastava.

 

E fomos levando... Eu saia com outras pessoas, homens ou mulheres, e ele também. A gente não falava sobre isso, os meses foram passando, a gente manteve os encontros de tempos em tempos, sabendo que ou a gente retomava ou aquilo acabaria mais cedo ou mais tarde.

 

 

E um dia ele saiu pra uma matinê qualquer, numa tarde que eu fiquei em casa, e lá pelas tantas trombou um outro bonitinho, que insistiu em encará-lo, e como estava levemente alterado por algumas doses de Campari, fumando um Marlboro atrás do outro, motivado quem sabe pela tristeza de esperar e esperar por alguém que talvez não voltasse mais mesmo, cedeu e deixou que o rapaz o segurasse pelo braço, se agarraram sem dó e nem piedade, trocaram um beijo daqueles de fazer tremer a terra e tremer o mar.

 

E estão juntos até hoje...

 

* * * * * 

 

A gente não pôde mais se ver, a bem de sua nova relação. Segundo um amigo em comum, ele passou dias, semanas, meses tentando se convencer, e a seu novo amado, que não teria mesmo mais nada comigo. Só teve certeza quando eu apresentei um novo namorado, aí ele entregou mesmo os pontos e deslanchou no seu romance novo. Seu namorado, e nós nunca nos conhecemos pessoalmente, não podia ouvir falar meu nome, criou um bode imenso por mim, e sentia possivelmente uma certa insegurança pelo nosso passado, pela intensidade do nosso romance.  

 

O tempo foi passando, um ano, cinco anos... Um dia ele estava embriagado e desabafou que por mais que gostasse do seu namorado atual, era eu o grande amor da sua vida. Falou isso na frente de muitas pessoas, seu namorado chorou muito de tristeza, isso chegou a meu conhecimento e me entristeceu também, por mim, por ele e pelo seu companheiro, que deve ser um homem de muito boa índole.

 

Muito em breve eles emplacam dezoito anos de relacionamento estável, eu cheguei no máximo a doze anos brutos, entre muitos inícios e diversos finais, sendo sete anos líquidos. Segundo esse amigo, ele engordou uma média de uns dois quilos por ano, seus cabelos de fato cairam e ele está mais lindo que antes, é um coroa charmoso que vem tentando parar de fumar. Ainda mora com a família, trabalha no mesmo banco e não bebe mais campari, hoje só bebe vinho tinto e de boa procedência... 


Escrito por Henrique às 23h46

Campo minado

Sexta-feira , 11 de Janeiro de 2008

Já andei por tantas terras,
já venci mil guerras,
já levei porradas, dominei meu medo,
já cavei trincheiras no meu coração...

Descobri nos pesadelos: sonhos mutilados;
e acordei no meio de anjos cansados
de serem usados pela solidão.

Ah! meu coração é um campo minado!
Muito cuidado, ele pode explodir.


E se depois,

de tão dilacerado,
for desarmado?

 

- Porque há de vir
alguém que queira:

compensar a dor,

plantar o sonho

e ver nascer a flor.


Alguém que queira, então, me residir
e explodir meu coração de amor!


 

Composição: Mário Maranhão / Mário Marcos / Maxcilliano

 


Escrito por Henrique às 11h59

forty no more

Domingo , 06 de Janeiro de 2008

 

Vivo meus últimos minutos com quarenta anos,

amanhã ao acordar já terei quarenta e um e confesso que

estou achando esse número um tanto quanto esquisito,

nas minhas capricornices esotéricas lhes conto que

prefiro os números pares,

seguidos dos ímpares múltiplos de três,

depois os múltiplos de cinco e de sete.

 

E mais ainda, não gosto nadica de nada

dos números primos, números primos,

para quem fugia das aulas de matemática

para fumar escondido no banheiro,

são aqueles divisíveis apenas por 1 e por eles mesmos,

vocês se lembram da sequência dos números primos até o 100?

 

Vamos lá: 01, 03, 05, 07, 11, 13, 17, 19, 23, 29, 31, 37, 41, 43, 47, 53, 59, 61, 67, 71, 73, 79, 83, 89, 91, 97... 

 

Amanhã minha mãe me acordará as 08 horas e 25 minutos, exatamente o horário em que eu nasci, de parto normal, com 51cms e pesando 3,535kgs... Historicamente isso aconteceu muitas vezes, se bem que agora que estamos mais velhos em geral estamos dormindo ainda nesse horário...

 

Isso mesmo, capricorniano com ascendente aquário!

E que tal deixarem um comentário bem lindo de parabéns,

me desejando muitas coisas boas, muita saúde,

muito sucesso e muitos anos de Vida,

me desejando até um amor bem bacana

para dividir a jornada nesse instrumento?

Não precisa colocar endereço de email,

preencher todos os campos não,

apenas naquele com o asterisco em vermelho,

basta colocar algo que nos conecte...

Vale apelido, símbolos, carinhas, use a originalidade...

Pode ser ou tá dificil? hihihihihi...

 

Afinal de contas eu também gosto muito de vocês, amigos reais de diversas tribos e também dos amigos virtualmente reais, e se esse blog persevera (apesar da lamentável falta de atenção na divulgação desse portal, que é visivel não só comigo mas também com os outros blogueiros que não são da redação e que também estão tristes com essa desatenção dos queridos do MixBrasil...) é pela minha satisfação em escrever e sobretudo pelo incentivo de vocês, meus amigos.

 

Um forte abraço!


Escrito por Henrique às 23h39

1988, 1998 e 2008

Terça-feira , 01 de Janeiro de 2008

 

Estava aqui pensando no que escrever nesse meu primeiro post de 2008... Iniciei mentalmente uma retrospectiva das muitas festas de ano-novo que já vivi, vale lembrar que semana que vem completo 41 anos de Vida, então assunto não faltaria, mas vou me prender apenas aos reveillóns de 1988, no auge dos meus 20 anos, depois em 1998, no mais que auge dos meus 30 anos e esse último, no auge assim absoluto dos meus 40 anos...

 

 

 

Aos 20 anos eu acreditava que uma festa de ano-novo deveria acontecer ao lado de muitos amigos, que seria uma excelente idéia juntar os amigos que passaram o ano todo juntos e fazermos uma viagem pra praia. E como a gente tem amigos aos 20 anos! Nessa época eu adorava sair, era comum me encontrar quase toda quarta e quinta-feira num bar chamado Feitiço, sextas e sábados em boates como a Corintho e o Malícia, e as matinês aos domingos na Nostro Mondo ou Acrópolis. Esses foram alguns dos guetos que marcaram a minha geração, deles apenas a Nostro Mondo sobrevive até hoje, mas acredito que não lembre em nada o que era naquela época.

 

Mas voltando à festa de final de ano, como éramos muitos amigos, alugamos duas casas no litoral norte e fomos numa caravana de 25 pessoas pra Ubatuba. Organizei tudo, sempre essa coisa minha de tomar a frente e tornar viável um sonho. Pois bem, para ser exato, eram duas "rachas", vinte "bibas" e três "bofes" suspeitos ao extremo, todos na faixa etária dos 17 aos 30 anos. Uma turma bonita, visualmente falando, mas cujas afinidades não passavam além das portas das boates aqui de São Paulo.

 

Fizemos uma compra grande no supermercado, definimos cardápio para os dias de permanência, incluída a ceia de ano-novo, e rateamos as despesas. Pois bem, dizer que rateamos as despesas é força de expressão, pois muitos dos amigos se fizeram de desentendidos e não pagaram até hoje a parte que lhes cabia. E como sempre alguém paga a conta, nem preciso dizer que paguei por mim e por mais alguns. Na época eu não cheguei a me incomodar pois muitos dos amigos foram convidados, insistentemente, por mim e eu sabia das dificuldades financeiras que enfrentavam. Mas houve uma certa acomodação, pois dinheiro pra balada nunca faltava...

 

Um dos amigos ficou durante todo dia 31 cozinhando pra que nossa ceia fosse linda... Ele era obeso e muito branco, não gostava de praia mas queria estar com a gente, era um cara de muito boa índole. Me ajudou com o cardápio, com as despesas e fez bonito, trabalhou feliz o dia todo! Pois bem, as outras bibas, mais novinhas, queriam ferver na virada do ano na praia e portanto desejavam sair de casa já alimentadas, eis que o coitado que cozinhou o dia todo foi tomar um banho, demorou um pouco mais no seu ritual de beleza ursina, as bonitas suburbanas mortas de fome atacaram alucinadamente a mesa, comeram tudo na fissura, sairam com o que puderam nas mãos e foram à praia, quando o cozinheiro oficial saiu do banheiro não restava mais nada além de restos esparramados na mesa...

Atitude muito feia...

 

É claro que ele se entristeceu, chorou e se indignou, quem não se sentiria mal com isso?

 

Mas ainda assim colocou um sorriso no rosto,

afinal era ano-novo.

 

Na virada do ano, já na praia, os casais se abraçavam e se afastavam dos demais, como se não houvesse um grupo de amigos e sim alguns pares, e eu estava (apenas pra variar...) sem namorado, devo contar que me senti extremamente sozinho naquele instante. Aliás, eu nunca me senti tão sozinho numa virada de ano como naquele ano, coube então um abraço apertado no cozinheiro, que também sobrara, sob uma lua cheia que era um belo presente da Vida pra gente, depois voltar pra casa e limpar a sujeira toda que os demais deixaram enquanto eles se divertiam com seus pares.

 

Desse episódio ficou uma lição: a gente conhece verdadeiramente os amigos quando viaja com eles.

 

Aos 30 anos minha Vida havia mudado bastante, bastante mesmo. Daquela turma anterior não restava mais ninguém no convívio íntimo de amizade, eu já não frequentava mais a noite e estava bem mais centrado, nem sabia mais onde eram os bares ou boates que tanto gostei quando mais jovem, tinha concluído a faculdade e já morava sozinho em um apartamento próprio, recém havia iniciado um romance com o Augusto, aquele com quem fiquei casado por três anos.

 

Eu tinha diversos convites pro reveillón, de novos amigos feitos nessa década, bem mais maduros, amigos de verdade e não apenas companhia rostinho bonito carão de boate. Mas eu não queria estar com muita gente não, o Augusto tinha viajado pra praia com a família e eu optei por passar o reveillón sozinho em casa, sozinho por completo e sem nenhuma dor ou tristeza nessa minha lúcida opção, seria a primeira vez na Vida que iniciaria um ano sozinho, preparei alguma comida pra mim e ao romper de um novo ano estava pelado em casa, envolto em tintas e painéis, pintando quadros lindos, vendo pela tv a queima de fogos e as festas Brasil adentro.

 

Poucas vezes me senti melhor, mais em paz e tranqüilo comigo mesmo. Nenhuma expectativa, nenhuma tristeza, claro que alguma saudade do Augusto, afinal vivíamos o melhor momento do nosso romance, mas tinha comigo naqueles instantes apenas sentimentos bons. O Augusto me ligou pouco após a meia-noite e desejamos coisas boas para a vida a dois que iniciávamos e que durou felizes três anos. 

Embriaguei-me na minha solitude com uma garrafa de vinho, fumei um baseado que havia ganhado de presente de um amigo e fui dormir muito feliz, me sentindo leve como um anjinho.

 

Desse episódio ficou outra lição: a gente se ama verdadeiramente quando fica sozinho sem temores, quando consegue se curtir e se sentir feliz independente de estar na companhia de alguém.

 

Aos 40 anos, nem um extremo e nem outro. Hoje, felizmente ou infelizmente não tenho nenhum amigo carão companhia pra boate e nem curto mais a noite, mas tenho muitos amigos do coração e foram muitos os convites, festas em diversos locais e com diversas tribos. Mas eu não queria muita agitação, muita função viagem, e acabou que pessoas muito queridas, e que estão sozinhas, se juntaram e fizemos um jantar simples na casa de um querido. Fiz a salada de lentilha, um deles fez um tender, uma salada e uma farofa, outro levou as sobremesas, outro as bebidas e fizemos uma festa linda, íntima e sem frescuras.

 

Éramos quatro pessoas, dois gays e dois héteros, amigos que se respeitam e que passaram o ano juntos tocando diversos assuntos além da amizade, parceiros de trabalho, confidentes, gente muito querida mesmo. Bebemos até que bem essa noite, mas sem enfiarmos o pé-na-jaca, levemente embriagados iniciamos um debate e concluímos, entre outras coisas, que ser gay é uma benção!

 

Interessante que os dois amigos, sabidamente héteros (praticamente não há dúvidas, mesmo embriagados...), são muito bem resolvidos com a própria sexualidade e com as alheias, afetuosos a ponto de nos beijarem muito e sempre, ternura e afeto mesmo, desencanados a ponto de dividirem uma cama comigo sem medo de assédio e por saberem do meu respeito, amigos que admiram a coragem que temos em nos assumirmos e, em suas leituras do mundo,

é muito mais fácil ser gay... Será?

 

Quanto aos vinte e cinco "amigos" de 1988... Tentei fazer uma lista de quem eram, como estão hoje... Tarefa difícil e belo exercício de memória... Nos últimos anos cruzei com seis deles na feirinha da Benedito Calixto, conversei com dois deles e os outros a gente meio que não se reconheceu ou fingiu que não se viu, ou não me viram mesmo, mas modéstia inclusa o tempo passou mais lento pra mim que pra eles... Dos demais eu sei do paradeiro de uns quatro, aqueles que me ligam no meu aniversário, um deles é leitor desse blog e ainda contabilizei oito óbitos, por aids ou por acidentes de carro. Somando, concluo que pelo menos sete pessoas eu sequer me lembro quem são!

 

 

E daquele cozinheiro nunca mais tive notícias.

Espero, de coração, que esteja bem.

 

Um 2008 lindo para todos!


Escrito por Henrique às 22h50


 m O O n 

Conscientize-se!

free counters

XML/RSS Feed

IBSN: Internet Blog Serial Number 012-12-0-2012