BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

polacos

Domingo , 27 de Abril de 2008

 

Não importa quantos problemas você já tenho enfrentado na Vida, não importam as dores que sentiu enquanto buscava superá-los, não importam seus sonhos de dias tranquilos e muito felizes.

 

Nada disso importa, a Vida continuará te testando e você terá que ser forte, cada vez mais forte e não adianta sofrer, se deixar abater, pois por maiores que sejam os seus medos sempre haverá alguém que você ama por perto precisando espelhar em você a fortaleza que você sabe que não é.

 

Você pode até se permitir chorar sozinho agarrado aos seus travesseiros, na madrugada triste e insône que te navalha a alma, pode chorar no ombro daquele seu amigo mais que querido, sem dizer palavra, pode se enfiar num cinema as duas da tarde e ficar por lá até as dez da noite, assistir um filme triste que te abra as válvulas da emoção, ver e rever as cenas até  saber o momento exato em que seu coração vai ficar apertadinho, que aquele nó na garganta será mais forte que o cara que você sempre soube não ser.

 

Você terá que ser forte, permanentemente forte, muito forte, além das suas forças. Alguém que você ama além da conta, precisa que você se supere. Mais uma vez. Mas você vai dar conta, pode ter certeza.


Escrito por Henrique às 11h05

2002, agosto

Domingo , 20 de Abril de 2008

Naqueles dias eu andava bem triste e cansado, não via razão alguma nas coisas que fazia, não via sentido na vida que levava. Nada relacionado com depressão, doença que para mim até então era uma baita frescura, coisa de gente carente e de cabeça fraca, querendo chamar a atenção dos outros pro seu umbigo... Não, nada disso... Apenas eu já não curtia mais o meu emprego, trabalhava havia mais de quinze anos na mesma empresa, e apesar de já ter atuado em diversos departamentos e conquistado enfim um posto de destaque, com salário alto e responsabilidades enormes, não me sentia feliz e tinha o tempo todo uma sensação de que aquele alí não era o meu lugar.

 

Sabia que não havia mais como crescer naquela empresa, o próximo degrau seria a diretoria geral da corporação, posto cobiçado por mim e mais uma meia dúzia de gerentes patetas iguaizinhos a mim, mas eu reconhecia que alguns levavam vantagens em relação ao meu perfil. E quando digo que alguns colegas levavam vantagem em relação a mim, essa é uma constatação não vitimizada, por admitir que outros colegas no mesmo nível tinham diferenciais em sua formação acadêmica, tais como pós graduação, mestrado, doutorado, fluência em vários idiomas, fatores que os colocavam em vantagem... Apenas isso. Só que mais do que ser chefe em uma área estratégica, eu era desde muito antes disso um líder, que tinha auxiliado e direcionado a formação de muita gente bacana com quem tenho amizade até hoje.

 

 

E fazendo uma analogia da vida de cada um de nós com as escaladas dos alpinistas, depois que se chega ao topo de uma montanha só resta mesmo é fazer o caminho de volta e descer. E para um bom capricorniano, cujo simbolo é a desbravadora cabra das montanhas, a sensação de ter chegado ao topo não é outra senão a de missão cumprida seguida do desejo consciente de voltar e desbravar novos territórios. Nem só o cume interessa...

 

Meu namoro também não estava legal. Contabilizávamos 12 anos juntos, sendo pouco mais de 7 anos líquidos e unidos de fato, em diversas idas e vindas, com recomeços em geral improdutivos, daqueles que a gente insiste em perder tempo procurando os caquinhos que conscientemente jogou no lixo.

 

Apesar disso a gente teimava, perseverava naquilo mesmo sabendo que 12 anos já não significavam nada, que a relação não emplacaria mesmo e que estávamos naquela fase sem tesão nenhum há tempos, naquele marasmo de sexo mensal com aventuras extra-conjugais regulares, tanto eu quanto ele. Nós já havíamos tentado de tudo, relação fechada monogâmica, relação aberta do tipo cada um faz o que quer sexualmente e nem precisa contar nada pro outro, relações eventuais com outros homens e vez ou outra com mulheres também... A gente até se gostava, queria ver o bem do outro, mas não era mesmo pra sermos um casal com sonhos de envelhecermos junto. Só que a gente insistia, e naquela fase ia ao cinema as quartas-feiras, duas ou três vezes por mês, pois qualquer outra atividade era mais importante e a gente não fazia esforço algum para conciliar nosso namoro com vida social. Os nossos amigos voltaram a ser os meus amigos que ele conhecia, os amigos dele que eu conhecia, cansei de ir a festas e viagens sem ele por conta de atividades fictícias que ele arranjava nessas datas.

 

Num dia qualquer eu concluí, com certo pesar, com desilusão, desilusão que nada mais é do que a visita da verdade, o salvar-se da ilusão, que daquele jeito não dava mais pra continuar. Mas faltava ainda aquele clique para desligar tudo que estava errado e criar coragem para começar algo novo, na vida profissional e afetiva. Faltava acessar a tecla da coragem, afinal a gente tem uma tendência normal de se acomodar na sensação de que o amanhã será melhor que o hoje, mesmo quando o passado recente nos dá provas irrefutáveis de que isso é utópico... 

 

E não é que eu avistei essa tecla mágica, bem lá longe? Na empresa me comunicaram que eu deveria cortar dois postos de trabalho na minha área, mas minha equipe já estava enxuta e com muito trabalho e eu, paternalista que sempre fui, ficava imaginando o quanto complicaria a vida daquelas pessoas que tanto me auxiliaram, demitindo qualquer uma delas. Pensava comigo que um deles tinha uma mãe doente e que lhe custava caro, o outro tinha uma esposa que estava grávida, a outra pagava faculdade e há tempos merecia aumento de salário, o outro isso, a outra aquilo e essa equação não fechava na minha cabeça.

 

E para completar, meu namorado voltou a usar drogas. Muito chato mais esse agravante. Ele, que já tinha histórico de dependência absurda de cocaína na adolescência (e a gente conversava desde sempre sobre os riscos permanentes de uma recaída), começou a usar crack "recreacionalmente" aos finais-de-semana, e é lógico que escondeu de mim pois sabia que eu não aprovava e insistiria em tirá-lo desse movimento, só que a sexta-feira começou a antecipar pra quinta e o domingo se prolongava até a terça, na quarta a gente ia ao cinema e ele cada dia mais estranho, inventando desculpas mil para não viajar comigo aos finais-de-semana, que é quando quem trabalha muito e tem namorado quer curtir a relação.

 

E então eu juntei as duas coisas importantes que já não importavam mais, trabalho e relacionamento afetivo, e virei a minha mesa... Coloquei meu cargo à disposição e terminei meu namoro, sem grandes explicações. O namoro foi mais fácil, ele andava tão perturbado com a dependência química que não se deu por conta do que estava acontecendo. Um dia, após o cinema, eu o deixei em casa e disse que não dava mais, ele me perguntou se eu queria dar um tempo e eu respondi que um tempo a gente dá quando está há pouco tempo com alguém e se sente em dúvida, que no nosso caso já não havia mais dúvida alguma. Ele sorriu e desceu do carro sem falar mais nada. Já no trabalho a coisa foi um pouco mais complicada, eu estava à frente de projetos importantes e negociamos que me desligaria em 6 meses, prazo suficiente para que esses projetos fossem concluídos. E não precisei demitir ninguém.

 

Nesse dia eu relaxei. Parecia pra mim que eu estava numa prisão que me acenava com liberdade condicional por bom comportamento em 6 meses e tudo ficou mais fácil. Montamos um plano de transição até esse desligamento e meu sorriso voltou, passei a dar um gás que havia tempos não dava e contava os dias para concluir aquelas tarefas. E durante 6 meses eu trabalhei feliz, fui preparando o terreno pra que minha saída não impactasse de forma negativa nos negócios, afinal de contas embore eu estivesse abandonando o barco não queria que o mesmo afundasse, havia muita gente querida por lá ainda.

 

E em fevereiro de 2003, conforme combinado, a empresa me demitiu, pra surpresa de muita gente.

 

E foi assim que iniciei meu sabático: com o dinheiro da rescisão trabalhista e com um tesão enorme pela vida.

 

Mas o que eu fiz em seguida é assunto pro próximo post!


Escrito por Henrique às 14h31

sophia

Domingo , 13 de Abril de 2008

"Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

tigres e ursos que amarrei aos remos;

e o meu desprezo reina sobre o mar.

 

Gosto de uivar no vento como os mastros,

e de me abrir na brisa com as velas,

e há momentos que são quase esquecimento,

numa doçura imensa de regresso.

 

A minha pátria é onde o vento passa,

o meu amado é onde os roseirais dão flor,

o meu desejo é o rastro que ficou das aves,

e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 


Escrito por Henrique às 12h21

oito minutos

Quinta-feira , 10 de Abril de 2008

Oito minutos e eu completaria uma semana exata sem blogar. Não é por falta de vontade não, mas gosto de me sentar com calma para escrever e me falta tempo, o precioso tempo. E quando estou cansado não curto escrever...

 

Eu voltei a trabalhar, não que algum dia na Vida tenha ficado sem trabalhar, apenas voltei ao mundo corporativo e com desafios tantos que meu dia começa bem cedo e termina bem tarde, não me recordo nas últimas três semanas de ter chegado em casa antes das nove da noite, e chego sempre bem cansado, com aquele cansaço ameba que não consegue compreender um noticiário, quem dirá uma novela.

 

 

Sou de dormir pouco, cinco horas em geral me bastam, mas vinha de um período tranquilo quando me permitia tirar um cochilo após o almoço e descobri como são felizes aqueles que têm esse privilégio. Mas acabou, foi bom mas acabou. Sinto falta sim, mas já era. Agora, de volta à realidade ordinária, almoço num local qualquer e retorno molenga pro segundo round da batalha.

 

Estou feliz, é verdade e tenho que atestar isso, mas ainda não me readaptei a essa dinâmica e me sinto cansado. Não tenho horário pra começar o trabalho, o que é ótimo, mas também não tenho pra encerrar. Meu mental muito exigido durante o dia, planilhas, tabelas, editores, telefones, rádios, ruídos e mais ruídos. Gente pedindo, gente esperando, gente pra interagir comigo o tempo todo. Prazos, metas, objetivos, expectativas...

 

Algumas vezes sou de oito ou oitenta. Fiquei cinco anos trabalhando pouco, fazendo apenas aquilo que gostava, me reposicionando perante meus valores, buscando novas referências. Tentei vários caminhos, mergulhei honesta e inteiramente em todos eles. Aprendi muito sobre pessoas, colecionei alegrias e boas decepções, dei muita cabeçada, compreendi que não existem limites pra nada, mas a partir do instante que o nosso mental é domesticado.

 

Busquei ser o que sou, um artista nato que se entrega ao lirismo da existência com tintas e telas, acreditei ser o que sou, um cozinheiro muito afetuoso que mistura abóbora com alecrim, manga com trigo e banana com chocolate, pensei ser o que sou, um escritor inquieto e perturbador, mas me cansei de um marasmo chamado espontaneidade, abdiquei de uma enorme liberdade, aceitei um desafio e sinto que estou num bom caminho.

 

Cinco anos num sabático, belo luxo para poucos, mas todo carnaval tem seu fim.

 

No dia que aceitei o desafio que encaro agora eu fiquei muito triste, cheguei a chorar baixinho e dolorido por isso. Tristeza profunda mesmo a de me render aos fatos. Era como se um sonho tivesse acabado. Depois compreendi que quando um sonho se acaba a gente começa sonhar outros melhores. O choro começou de tristeza, com uma dor profunda no peito, de alma lavada expulsando amarras se tornou choro de libertação, que não creio que alguém além de mim consiga assimilar o que é. E depois, enfim, um choro sorriso maroto de felicidade que algum dia explico melhor.

 

Me sinto cansado, fisicamente falando, de semblante exausto, me deito esmagado e acordo com o despertador invadindo o que era pra ser uma manhã de sono sem hora pra acordar. Mas tem horas que a gente conclui que é bobeira ficar lutando contra o óbvio.

 

Então, vamos trabalhar.


Escrito por Henrique às 22h27

brilho

Quinta-feira , 03 de Abril de 2008

 

- Beescha, comemorar o que? A merda que ela está vivendo? Não bichá, tá tudo uó, ela tá uó, ela vai ficar quietinha aqui em casa, aquendar uma taba na véspera, de repente vai ter um bofe aqui pra dormir com ela, se for o Cleyton ela pede pra ele trazer um giz que ela sabe que ele gosta, ela dá um tequinho com ele, que a senhora sabe que ela nem gosta, ela gosta só no carnaval pra ver o desfile do Rio que ela ama assitir bem louca, ela trepa horrores e fica linda, bela, belíssima, de manhã ela acorda mais linda ainda, com a pele corada, dá mais um atendimento pro bofe no chuveiro que ela ama trepar logo cedo uma rapidinha, vai pro escritório feliz e ninguém, ninguenzinho da silva vai lembrar que é aniversário da Tata, depois ela vai almoçar com a mãe, depois volta pra casa e convida a senhora pra comer uma lariquinha que ela vai fazer e se a senhora quiser pode aquendar uma taba que ela vai comprar e pronto. Se bem que ela sabe que é durante a semana e a senhora não aquenda taba durante a semana senão acorda lesada no dia seguinte, aliás a senhora é lesada, né meu bem, mas ela ama a senhora... Não vai comemorar nada que ela tá fudida de grana! E festa pra ela ou é superprodução ou não rola... Mas se a senhora quiser pode dar um presentinho pra ela que ela sabe que a senhora tá podendo, tá mona, ela vai ficar feliz, pencas de feliz ela vai ficar!

 

 

Ela iria completar 40 anos de Vida no mês seguinte, um dia eu lhe perguntei quais eram seus planos pra festa, como seria essa comemoração, ela me disse que não iria comemorar nada não, que não havia o que comemorar.

 

Ele tinha essa mania de se referir a si mesmo dessa forma: Ela, a Tata... Quem é Tata? A Edna, dos brilhos!

 

E foi nessa dia, se não me falha a memória, que ele falou que não queria passar dos 45 anos. Conversa vai, conversa vem, aos poucos e com muito tato, muito jogo de palavras, eu fui convencenco-o a mudar de idéia. E como eu estava podendo, banquei a sua festa, nada de superprodução, mas como ele cozinhava muito bem, e tinha um outro amigo pra ajudar, deu pra fazer bonito no sábado seguinte ao seu aniversário, sem gastar fortuna.

 

No dia do aniversário ela comemorou do jeito que imaginou, o tal do bofe foi dormir com ela na véspera, de manhã ela despachou o moço num lugar qualquer e a noite eu apareci por lá pra jantar, de quebra levei um cd da Cher, que sabia que ela adorava, pois era tocar essa música Believe numa rádio qualquer que ela aumentava o volume de forma tão exagerada que o prédio todo ouvia.

 

Presente mais óbvio, e mais eficaz, impossível.

 

E a sua festa foi bem bacana, divertida, alegre como era essa minha amiga. Na véspera fomos ao Supermercado Andorinha, compramos umas dúzias de cerveja e todo o necessário para produzir uns patês de berinjela, de ricota (que ela não comeu pois odiava ricota...), duas lazanhas enormes, bolo prestígio e uma mousse de maracujá escândalo. E compramos também balões coloridos, pratinhos e chapeuzinhos da cinderela.

 

- Bicha, a senhora vai fazer eu pagar esse mico de usar chapeuzinho da cinderela? Bichá, me poupe, bicha! Não bichá, uó, gastar dinheiro com isso, nada disso! Bichá, e os bofes, com esse chapeuzinho? Pára bicha, pára!

 

Não apareceu muita gente não. Umas quinze pessoas, no máximo, de uma lista de mais de trinta. Eu, meu namorado da época, o ex-namorado dela, uns quatro ou cinco bofes que estavam na sua escala semanal de atendimentos, duas rachas amigas dela, uma mais bicha que a outra, mais duas bibas que eu nunca tinha visto e o Neco, um amigo nosso cozinheiro de mão cheia que passou sábado o dia todo na produção, regada a muita música e muita taba.

 

Da sua família apenas um sobrinho com a namorada, um rapaz gente boa pra caramba que, apesar de nascido numa igreja evangélica, não apontava o dedo pra ninguém, não julgava os outros e que amava seu tio daquele jeito maluco dele, um jovem virgem de vinte e poucos anos que dava risada das performances das bibas e dos bofes, sem constrangimento algum, junto à namorada também virgem que mais tarde, soube, veio a se tornar sua esposa.

 

Durante semanas eu ouvia o disco que presenteei dia e noite, noite e dia, em volumes diferentes e muitas vezes com a sua voz aguda fazendo dueto com a Cher. Quando estávamos juntos ela fazia performances, dublagens, caras e bocas, algumas vezes de forma tão intensa que se arrepiava inteira, como quem incorpora uma entidade, e chegava às lágrimas. Eu amo a Cher!

 

Meses depois nós discutimos. Nas primeiras semanas eu parei de ouvir essa música, cheguei a pensar que ela tivesse quebrado o disco, mas ela nunca foi assim tão dramática. Quando nos encontrávamos no estacionamento desviávamos para não subirmos no mesmo elevador, de manhã nunca coincidia de descermos no mesmo horário. Eu algumas vezes a via na janela, esperando que eu saísse para só então descer.

 

Algum tempo depois, menos de um mês, a música voltou a tocar. Nós éramos amigos, de verdade, eu sabia que para ele era difícil falar dos seus sentimentos, era complicado pedir desculpas, ainda mais para um cara rígido ao extremo e intolerante como eu era nessa época, eu sabia dessa sua dificuldade.

 

Mas eu não entendi o seu recado.


Escrito por Henrique às 22h35


 m O O n 

Conscientize-se!

free counters

XML/RSS Feed

IBSN: Internet Blog Serial Number 012-12-0-2012