BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

alvorada

Domingo , 27 de Julho de 2008

 

 

Nós nos falamos terça-feira passada, ele me disse que estava no médico, que estava com alguns problemas sérios de saúde e que tinha que se cuidar. Eu, Poliana da Silva, disse que não era nada e que ele ficaria bem muito em breve, que era só se cuidar direitinho e evitar os abusos, ainda assim perguntei o que era, ele apenas alegou que a coisa era bastante séria e que tinha que se cuidar mesmo se não quisesse morrer, disse que precisava muito falar comigo e me convidou para ir à sua casa naquela noite...

 

- Tio, passa em casa hoje a noite, eu preciso trocar uma idéia com o senhor, preciso muito da sua ajuda, falando bem sério: eu estou com medo, eu não quero morrer não tio... Vou estar em casa a noite, consegue passar lá mais tarde?

 

E eu disse que não sabia, que não achava provável mas que ia tentar lhe fazer uma visita e que caso não conseguisse dava um jeito de ir na sexta ou no sábado, que pra mim era mais tranqüilo pois estou sem carro e trabalhando longe da sua casa, desculpa esfarrapada de quem não quer fazer alguma coisa. São Paulo é gigante e tudo é longe mesmo, mas a gente chega onde quer, quando quer... Ele me disse que tudo bem, mas me pediu que fizesse uma forcinha, e ainda disse: Eu preciso muito falar com o senhor...

 

Mas o que passou pela minha cabeça naquele momento foi que estou acordando muito cedo, que tinha dormido pouco na noite anterior e que precisava voltar pra casa, descansar, que seria muito melhor visitá-lo sem ter preocupação com o dia seguinte, fora que ele estava morando num apartamento em uma região não muito segura no centro. E pensei também que eram pouco mais de dez horas da manhã e apesar do cansaço e da noite mal dormida eu teria ainda um longo dia pela frente, meu trabalho me cobra um nível de atenção difícil de manter quando se está cansado. 

 

E eu não fui visitá-lo naquela terça-feira, como já sabia que não o faria... Nem na quarta, nem na quinta, nem na sexta. Na sexta consegui sair cedo do trabalho e liguei pra ele sucessivas vezes, todas com caixa-postal de celular desligado ou fora de área. Imaginei que estivesse no metrô, que tivesse acabado a carga do celular e fui insistindo. Mas nada de conseguir falar, não costumo deixar mensagem, assim como não ouço as mensagens que deixam na minha caixa postal, deixo isso claro na minha mensagem, que é melhor ligar novamente mais tarde. Sensação incômoda querer falar com alguém e não conseguir.

 

Voltei pra casa, tomei um banho e fui pro centro da cidade, novas tentativas de contato, todas sem êxito. E fui ficando preocupado, ele não tinha hábito de desligar o celular, ainda mais por tantas horas seguidas, ele ficava boa parte do dia e da noite pendurado naquele aparelhinho. Voltei pra casa de madrugada, insistindo ainda assim em tentar um contato, mas nada feito, não era pra ser. Já em casa, cansaço físico e mental acumulados mais sono agitado, sonhos desconexos com pedidos desesperados de ajuda, de diversas vezes que agora não consigo me lembrar, tive uma noite bem estranha, custei pegar no sono e acordava toda hora.

 

Eu tinha um monte de função pro sábado o dia todo, porém não consegui sair da cama cedo. Sabe quando o corpo pede mais dez minutos, você adormece de novo e se passam duas, três horas? Acordei bastante cansado e com um mau humor atípico, refiz a programação do dia, fui desistindo das muitas atividades, mas mantendo a tarde reservada pro meu amigo. Mas nada de conseguir falar com ele, fui fazendo o que tinha que fazer e voltei pra casa no final da tarde. E nesse computador, nessa mesma cadeira, lendo meus emails havia um com o título "comunicado importante". Nota de falecimento...

 

Tarde demais. Meu amigo havia partido as 4hs da manhã após sucessivas paradas cardíacas. 25 anos completados na semana passada, em mais uma festa que eu não fui por estar cansado e por pensar que a Vida é melhor durante o dia. Eu não desejo citar seu nome, embora nem faria diferença, pois quem mora em Sampa e curte a noite deve saber de quem estou falando. Nossa amizade não surgiu na noite paulistana e sim nas nossas buscas espirituais, nós participávamos dos mesmos grupos de estudos com uso da ayahuasca.

 

Segundo esse email do amigo em comum ele não havia sofrido, mas não imagino ser possível não sofrer quando se fala em morte, ainda mais pelo tanto espiritualizado que estou... Talvez não tenha havido o sofrimento físico, não da forma como a gente imagina, mas e o sofrimento espiritual? E o apego ao corpo físico com o qual estamos habituados, nosso templo que cuidamos com tanto cuidado? Tá bom, realmente a gente nem sempre cuida desse templo como deveria... Há tempos venho aprendendo que esse corpo é uma casca, uma morada provisória, que somos energia, luz e blá blá blá... Mas nessas horas eu fico me questionando muito mais que o seu Zé lá na roça, que não conhece esses papos mas que sabe muito bem o que é fome, sede e dor, sem divagações, que sabe que angústia e tristeza são coisas que a gente sente apertar bem fundo lá no peito.

 

Uma vez eu perguntei pra esse garoto se ele nunca se cansava, ele me disse que se cansava sim, mas que gostava muito da Vida pra se entregar ao cansaço... Tio, em alguns instantes da minha Vida eu deito e durmo, não me importa se é de manhã, de tarde, à noite, durmo quando fico exausto e poucas horas de descanso me bastam, não tenho tempo a perder dormindo...

 

Ele me tratava por tio, como vários amigos o fazem, no nosso caso não apenas por uma diferença de idade de década e meia, mas acho que pois desde o primeiro contato eu o "adotei" como um querido que merecia carinho e atenção de pai, de tio, de um homem mais velho e não de irmão, é diferente a forma como a gente se afeiçoa as pessoas.

 

Ele era um cara de muitos amigos, sempre alegre, daqueles que parecem não ter problemas, sempre sorridente, sempre fazendo um monte de coisa ao mesmo tempo, nunca reclamava de nada, apesar das sucessivas merdas que aconteciam com ele. E não eram poucas as crises com a família, as dificuldades com trabalho e grana, problemas com os vizinhos que não gostavam do seu estilo, tinha profundos questionamentos por uma soropositividade pra hiv exposta com lucidez aos amigos e ao mesmo tempo a dificuldade em levar algum tratamento à sério, tradicional ou alternativo. Aliás disciplina era palavra que faltava em seu dicionário.

 

Mas comigo era diferente e ele me ligava vez ou outra querendo conversar e talvez pela dinâmica que criamos ele me ouvia e prestava bem atenção, no fundo eu era mesmo o tiozão que sabia ser quase um pai sem cobrar muito e ser chato, e irmão que sabe ouvir muitas vezes sem ter que falar palavra. E eu passava a tarde na sua casa, a gente conversava sobre um monte de coisa, ele desabafava sem se colocar em tom de vítima, havia uma coisa nele que se fortalecia justamente nas muitas dores já sentidas. Não havia tempo ruim, arregaçava as mangas e estava sempre pronto para ajudar. Sempre pronto.

 

Numa das nossas conversas eu sugeri que ele voltasse a estudar e ele me ligou dias depois agradecendo pelo incentivo, já matriculado numa boa escola, em menos de um ano estaria concluindo o segundo grau e nós tinhamos um acordo de que ele me convidaria pra sua formatura na faculdade, eu gostava de incentivá-lo em seu melhor, é uma coisa minha de incentivar e fazer pelos outros o que gosto que façam comigo.

 

A gente não se encontrava pessoalmente havia mais de 4 meses, inúmeros contatos por telefone, praticamente toda semana, ele sempre falava que queria muito conversar comigo, marcamos algumas vezes de nos encontrarmos mas acabava não dando certo. Eu sempre muito pontual e quadradinho e ele sempre livre, leve e solto, uma hora de atraso não era nada pra quem acreditava viver a eternidade. Eu priorizando o meu trabalho, além desse momento difícil em casa com minha mãe doente; ele priorizando os próximos minutos, vivendo intensamente cada instante.

 

Mais um amigo querido que se vai e mais uma vez estou tendo que digerir esse papo de morte, coisa bem chata mesmo e Deus queira que eu nunca a compreenda. Não que eu a tema, tem uma frase que gosto que diz que "quem não vive tem medo da morte"... Eu ainda não sei detalhes do que aconteceu, mas tenho comigo uma forte sensação de ter falhado. Eu não lido bem com essa lance de falhar, ainda mais numa hora dessas quando alguém pede ajuda em algo que estava totalmente ao meu alcance, bastava ter deixado o cansaço de lado.

 

E provavelmente porque eu também tenho comigo uma coisa muito forte com a culpa, está bem desconfortável a sensação de não ter dado a atenção que deveria para alguém muito querido e que com muita dificuldade me pediu ajuda. E para quem acompanha esse blog, a sensação é bem diferente da relatada no episódio Edna dos Brilhos, a dinâmica da nossa relação era outra. Está bastante complicado assimilar essa passagem assim, tão de repente.


Escrito por Henrique às 20h22

birds

Quarta-feira , 23 de Julho de 2008

Don't worry about a thing,
'Cause every little thing
gonna be all right.

Saying , don't worry about a thing
'Cause every little thing
gonna be all right.

 

Minha mãezinha está bem, passou ontem por uma segunda cirurgia e está em casa se recuperando. Breve breve vai estar Vida normal, mais forte e melhor que antes dessa tormenta toda. Os desafios estão apenas começando... Aliás, tomamos mais um susto e não nos restou alternativa além de encarar os fatos e fazer o que tinha que ser feito. Ela está bem, o episódio serviu para aproximar e distanciar mais ainda quem já estava próximo ou quem já estava distante. Far away, so close - bem além das asas do desejo - tão longe, tão perto e outras vezes tão perto que chega a ser dentro da gente. Ainda há muita coisa pra assimilar, eu honestamente nunca pensei que algum dia minha mãe fosse ter um câncer, não por não acreditar que essas coisas acontecessem na casa da gente, mas por acreditar no perfil gente feliz dela, sempre alegre e brincalhona e porto-seguro de todo mundo que está por perto, sempre atenciosa e com algo legal pra dizer na hora que a gente mais precisa. Apesar da apreensão, me sinto em paz com a minha mãe e orgulhoso das reações dela.

 

Meu trabalho me exigindo cada dia mais e algumas vezes me sinto prestes a estourar, embora saiba que isso não vá acontecer, tem dias que a sensação de esgotamento vem muito forte, parecendo que vai me derribar. Mas como sei que sou mais forte que esses momentos, que se o corpo pede é melhor respeitá-lo e é quando me levanto, vou tomar um ar e fazer uma ginástica, maravilha ter uma academia montada dentro da empresa e essa liberdade de ir e vir sem ter ninguém controlando, apesar do monte de câmera bigbrother em todo canto da empresa. Também aqui me sinto feliz. É muito bom ter voltado a produzir, viver novamente uma rotina, ter a sensação de que muita coisa está mudando pra melhor, pra mim e pros que me cercam, hora de trabalhar muito preparando uma colheita bem farta muito em breve, hora de respeitar os ciclos e os tempos e de continuar mantendo a soberba sob controle...

 

Minha paquerinha está cada dia mais gostosa, a gente se aventura em comentários provocantes e tímidos na nossa bat-hora toda manhã ou na bat-hora surpresa da tarde, contamos causos e causos e nos olhamos cada dia com mais ternura e algumas vezes com desejo também. Claro, tinha que ser assim. Porém continuo não tendo pressa, desta já desisti, tampouco nutro expectativa alguma, simplesmente vivo e deixo viver. Ou se permito brotar expectativas, que sejam então bem de leve, com sorriso gostoso no rosto, cheiroso e bem charmoso logo cedo ou mesmo após um longo dia de trabalho, afinal é assim que eu sei ser. A gente continua se olhando com admiração, nosso olhar é o nosso limite e nas minhas viagens fico imaginando quais seriam as fantasias dele. Me sinto tal e qual aquele adolescente cheio de espinhas que não sabe lidar com o que sente e que nem sabe o que é ao certo. E digo que aqueles olhos verdes que me inspiram sair da cama tão cedinho estão cada dia mais lindos e vejo neles tonalidades nunca vistas... Me sinto feliz, simplesmente.

 

E é por essas razões, entre outras tantas, é por esses três passarinhos que ocupam boa parte da minha Vida e dos meus pensamentos, que tenho estado tão ausente desse blog e com uma vida social sexual cultural cidadã tão morna e sem grandes novidades... Mas, apesar da enfermidade da minha mãe, do excesso de trabalho e das responsabilidades todas, e da carência afetiva enorme que sinto e disfarço pra não afastar as pessoas, estou feliz. Apesar desse meu amor platônico não vai dar em nada mesmo e que criei só para não ter a real dimensão do ninguém me ama ninguém me quer e que no fundo eu acho mesmo uma grande besteira, eu sou feliz e que algum dia me enterrem de pé! Então...

 

E essa musiquinha do Bob Marley é o nosso hino toda manhã no ônibus, a gente começa a falar de encrenca e o outro puxa logo o refrão, a gente dá risada e se diverte como cabe a quem deseja se sentir feliz, chova ou faça frio... E à noite, quando eu entro no ônibus em horários imprevisíveis e a gente se vê de surpresa, sempre levanta o dedinho pro céu e começa a sorrindo cantarolar, antes mesmo de darmos o nosso aperto longo e caloroso de mão... Don´t worry... O amor, é lindo!


Escrito por Henrique às 22h22

kombi

Domingo , 20 de Julho de 2008

 

 

 

Kombi 1967 em excelente estado de conservação.

 

Gratifica-se bem.


Escrito por Henrique às 11h50

evolução à francesa

Segunda-feira , 14 de Julho de 2008

 

          liberdade         

igualdade

       fraternidade      


Escrito por Henrique às 21h13

êxtase e ástase

Quinta-feira , 10 de Julho de 2008

 

 

 

Algumas vezes melhor seria

não compreender o significado das palavras.
êxtasástase éxtas

astáse extásastasé ëxtase


Escrito por Henrique às 22h07

amaramar

Sexta-feira , 04 de Julho de 2008

   

 


Escrito por Henrique às 23h04


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