BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

motivo

Quarta-feira , 31 de Dezembro de 2008

 

Esse ano termina como todos os outros. Melhor assim, tudo acaba sendo o que era de se esperar... Fazendo uma rápida retrospectiva na minha mente digo que os meses voaram sem que eu me desse por conta, foram muitas emoções fortes, tive que conduzir a Vida com ainda mais maturidade, encarar sentimentos inéditos como no episódio do câncer da minha mãe, que mexeu profundamente com as minhas estruturas sem que eu pudesse demonstrar sinais de fraqueza, largar a Vida boa de trabalhar eventualmente, bem pouco e em casa mesmo para retomar as rédeas da minha carreira, enfrentar os desafios de desenvolver novas habilidades, não apenas as minhas como as de outros na empresa.

O balanço final mais uma vez é positivo.

 

Falando de trabalho eu fiquei mais de cinco anos fora do mundo corporativo, por opção; final do ano passado iniciei um flerte bem intencionado com amigos empresários e em março iniciei um trabalho na empresa de um deles, comendo grama nos primeiros meses, fazendo a gestão necessária para estruturar as bases sólidas que permitirão um crescimento continuado, a médio prazo. Lembro da entrevista final quando ele me disse que eu tinha muito mais bagagem do que a empresa precisava e podia pagar, mas que meu talento e capacidade não seriam desperdiçados. Então vamos trabalhar, não apenas muitas horas de segunda a sexta, sábado e domingo se necassário, mas com eficiência. E os resultados já começam a aparecer, a fase de comer grama entrou nos momentos finais e já me permito contemplar alguns mimos que fizeram minha cabeça no passado, dos quais havia abdicado por questões de ordem prática.

2009, nesse campo, promete muito.

 

Agora falando de saúde, da minha e dos outros... Me mantive saudável o ano todo, exceto por uma virose no início do mês que me deixou bem mal; quanto à aids permaneço com carga indetectável para hiv, contagem de CD4 na faixa de 700 e praticamente sem oscilação, saúde mental acompanhando a física ou o contrário... Não sei, sei que estou bem de saúde há vários anos. Sei também que perdi alguns quilos, o que no meu caso não era algo desejado. Sempre fui aquele magro-gostoso mas me gosto mais quanto estou com uns 3 quilos a mais que hoje. E isso basicamente pela irregularidade nos treinos de musculação, perdi massa muscular, mas nada que não se recupere em uns dois meses com dedicação mediana.

 

O câncer da minha mãe mexeu comigo. Muito. Muito mesmo, me apavorava a idéia de perdê-la pra essa doença. E eu tive que ser forte, mais uma vez. Quem acompanhava esse blog em abril e maio lembra bem dos meus desabafos, no início meio evasivos para preservar os envolvidos. O que tinha que ser feito foi feito e digamos que hoje ela está bem - ainda que uma pulga permaneça atrás das nossas orelhas. Aqui o meu temor é que ela modificou muito pouco as atitudes, vem repetindo padrões de comportamento que me deixam inseguro. Mas mantenho o pensamento positivo de que o que tiver que ser será, que tudo é para melhor.

 

Ainda no campo saúde perdi um amigo querido pra depressão e pra aids, não sei se mais para a depressão ou mais pra aids, lembrando que tem também aqui o consumo de drogas regularmente, somado a hábitos de alimentação e sono nem sempre saudáveis, aliás destrutivos. Uma pena pois era um querido, foi-se embora no auge dos 25 anos, e muito me entristeci por ele ter me pedido ajuda e eu ter subestimado o tamanho do problema, ter colocado outras prioridades pra aqueles dias. Tudo isso também foi postado por aqui.

 

Sobre vida afetiva tive um amor platônico de seis meses e um romance de seis semanas bem legais. O amor platônico, aquele do polaco no ônibus toda manhã, está reduzido a conversas de msn e está bom assim, nem eu e nem ele tivemos coragem de nos declararmos, quem sabe no futuro, se um dia vingarmos nosso projeto de acampar na montanha... O romance não vingou e voltamos a ser o que éramos antes: dois ilustres desconhecidos, ficou apenas a memória na pele de trepadas homéricas, mas que se juntou a tantas outras que não passaram de uma cama boa, e nem digo infelizmente. Nem por mim e nem por ninguém. Não deu tempo de criarmos vínculos maiores.

 

Sobre os meus queridos companheiros, os amigos... Existem aqueles amigos do peito, aqueles amigos de sempre e que não faltam nunca, alguns eu não vi nesse ano, mas moram no meu coração. Novos amigos chegaram pra somar, são sempre bem vindos e como novos relacionamentos vêm com uma alta dose de encantamento, pintou gente muito bacana nesse ano, alguns em fase de descoberta. Teve também amigos que se foram, amizades nem sempre são para toda Vida, para alguns a amizade já não importava mais, ou não era tão sincera ou verdadeira, não havia mais aquela tal de eqüanimidade (com trema pois ainda pode...) e o respeito necessário para prosseguirem. Alguns desses contatos continuarão a existir, socialmente falando e com classe e educação, outros foram pro ralo mesmo e honestamente isso não me importa. Sem mágoas, sem rancores, sentimentos que como diz um amigo são "o veneno que a gente ingere se enganando que vai matar o outro".

 

No âmbito mais íntimo eu me sinto bem, sem ter que dar maiores explicações, sem ser alegre e sem ser triste, mais ou menos como dizia a Cecília Meirelles naquela poesia Motivo:

 

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."

...

 

E desejo que em 2000inove

não apenas eu mas também você

tenhamos muitos motivos para cantar.


Escrito por Tiago às 21h21

paxaros

Segunda-feira , 29 de Dezembro de 2008

"Aquel paxaro non canta
seica non ten alegría,
non se fai cousa de noite
que non se saiba de día."
(As Pachocas, Fuxan os Ventos)

Um dia eu vesti uma mochila nas costas e fui viver a Vida, simplesmente. Coloquei dentro dela umas trocas de roupa, o peso total não podia ultrapassar 10% do meu peso, sob risco de lesionar minha coluna, levei pouco menos de 20%, exagerado que sou, meticuloso e preocupado, muita atenção com a postura para não foder com a coluna, eis que pisei em falso uma hora e lesionei o joelho; "las rodillas" como falam em espanhol... Isso foi em abril e maio de 2003, eu estava com 36 anos. Sonho antigo meu, banal para muitos que o realizaram aos vinte, vinte e poucos, banal para quem teve condições financeiras de realizar antes, papai paga tudo e o meu não tinha pra isso. Nessa época eu também não podia, trabalhava e dava duro pra pagar faculdade e prestação de carro e apartamento.

 

Mais velho, pezinho-de-meia mais ou menos feito, final de casamento de quase 12 anos, saco cheio do trabalho, hora de dar no pé. Aquele era o meu momento e eu estava muito feliz com aquilo tudo, teve um post uma ocasião em que eu contei do processo todo que começou sem agosto, setembro de 2002, de largar um emprego bacana e bem remunerado, encerrar um relacionamento antigo que já não virava mais nada e mudar as prioridades da Vida. E comemorar 10 anos de hiv positivo, essa foi uma meta lá em 1993 quando eu tive o diagnóstico. E lá fui eu com a mochila nas costas, São Paulo - Madri, e de Madri pra uma cidadezinha na Galícia chamada Verin, de lá os Pirineu para iniciar uma caminhada até Santiago, uns 800 kms pra mais...

 

Eu queria caminhar sem rumo, quer dizer, sem pressa e zerando a ansiedade. Queria e fui pra uma empreitada de gente grande, caminhar 20, 30 kms todo dia com uma mochilona enorme nas costas, seguindo setas amarelas por todo lado indicando a direção. Conhecer pessoas de todo canto do mundo, falar inglês, espanhol, arriscar francês e italiano, se embebedar e compreender tudinho. E na Galícia me aparece esse Galego, esse idioma que é a base do português, uma sonoridade que me encantou. Eles usam X para um monte de sons, Junta vira Xunta, não usam o til, a acentuação e os tempos verbais são bem simples, algumas palavras se fundem aos pronomes, verbos com preposições, parece criança falando, é lindo, é ótimo de ouvir. Pássaros para eles são paxaros, a pronuncia é acentuada aguda no Xa, paxÁros. Falar sobre essa viagem daria um livro.

 

Quando eu consegui enfim chegar a Santiago de Compostella, depois de um longo caminhar, depois de um período recorde de abstinência sexual plena, nada de sexo, nada de bronha, numa carência de beijos e abraços daquela, não é que eu conheci um menino lindo que estudava Língua Portuguesa na Universidade local e que praticamente só falava galego, língua que estava sendo resgatada após décadas de proibição pela ditadura Franco? Pois bem, leituras e beijos e romance de uma semana com data para final previamente combinada, dias felizes também... Sei lá, era isso. Entrei pra contar uma coisa, contei um monte de outra e final non sense como sempre. Ainda bem que vocês me aturam.

 

Ia contar que vou tirar uns dias de férias, para trabalhar. Saio da empresa uma semana e vou monitorar uma reforma em um apartamento que eu alugo pra estudantes, tem três anos que é so usando e detonando e vou fazer uma intervenção geral, troca de piso com mais de 15 anos, rejunte geral revisão elétrica, limpeza, ou seja, nada de descanso, só função. Mas função que eu curto então tá valendo. Pedreiros bonitinhos, com referência, trabalhos bem executados, preço acessível padrão pé-de-morro, caprichosos e eficientes, querendo conhecer eu indico! E com esse lance de reforma lá se vai meu dinheirinho que eu estava guardando pra visitar a Tiffany em Paris na primavera! Sim, pois Paris é chique na primavera, tem época do ano que é mico total, nem os parisienses aguentam...

 

Feliz 2009, se eu não voltar antes!


Escrito por Tiago às 00h00

Jesus

Domingo , 28 de Dezembro de 2008

keep walking...

 

Minha base religiosa é cristã, meus pais são católicos praticantes e passei boa parte da minha infância envolvido com missas, terços e novenas, santos e mais santos, promessas e mais promessas, dogmas, pecados, aquele monte de proibição que ainda hoje agride o livre arbítrio humano... Mas minha família é grande e por conta disso tem de tudo, uma variedade ecumênica de causar admiração e todos se respeitam, tenho uma tia que era garçonete em bar de puta e travestis nos anos 70, que a Vida inteira gostou de umbanda e candomblé e que em algum instante foi seduzida pelas palavras inflamadas de um pastor eletrônico, viu na TV e gostou, se converteu e paga dízimo, hoje passa a milhas de distância do que pregou a vida inteira; tenho outra tia que foi católica por conta dos pais e depois do marido e que só após ficar viúva assumiu seus estudos escondidos do kardecismo, aos 70 anos transformou em obra assistencial a admiração por essa doutrina e vem fazendo a diferença na Vida de muita gente humilde no interior do estado, durante mais de 40 anos ela lia e escondia livros espíritas junto aos figurinos, linhas e agulhas e um dia conseguiu divulgar tudo aquilo que estudou. Ficou viúva e foi fazer trabalho voluntário, dar conselhos de avó. Essas duas são irmãs e hoje dão gargalhadas da Vida, tão distintas e tão verdadeiras. 

 

Eu, desde criança, já gostava de estudar as religiões. Fui batizado, fiz primeira comunhão... Tinha uma vizinha que era da Messiânica, outra que trazia bolinho-de-feijão no meio do ano dizendo que era ano novo, umas que minha mão dizia que eram macumbeiras, que mexiam com coisa ruim, teve um tio que estava perdendo o apartamento, todo endividado, e se converteu à Universal, foi vender pipoca na porta da igreja e hoje tá bonito na foto, virou obreiro e usa terno-escuro de bom corte... E eu já lia aquele jornal Sentinela, dos Testemunhas de Jeová, já via uma imagem de uma criança que tinha tromba, mais tarde soube ser Ganesha, e que me instigava curiosidade. Olhava aquelas imagens afeminadas, cheias de braços, cílios longos, não sabia se eram homens ou mulheres, não importava.

 

E algumas semanas antes da minha primeira comunhão aconteceu aquela que considero a minha primeira experiência sexual, eu tinha quase 15 anos e houve uma tentativa de sexo oral no meu primo - a primeira gulosa a gente nunca esquece... E como eu era danadinho, como gostava de provocar, claro que fiz questão de confessar isso ao padre horas antes da primeira comunhão... Só que havia uma fila enorme de meninos e meninas e eu fui ficando pro final, propositadamente. Eu nem gostava do padre, gostava mais da professora de catecismo (sem aquela conotação sexual quadrinhos eróticos anos 70), mas achei que deveria chocá-lo de alguma forma e já achava aquele papo todo uma coisa meio sem pé nem cabeça, ninguém me convencera até então da coisa da maçã. E contei pra ele que tinha cantado em outros microfones, que eu gostava de meninos... E ele se interessou, bastante embora disfarçadamente, sobretudo quando contei e quis saber detalhes, como quando, quantas vezes, com quem, onde, como e por quê... E eu relatei, é claro, com riqueza de detalhes, desde quando comecei a sentir vontade desses encontros anos atrás, ainda bem jovem, e as minhas negações, até a vivência do desejo, consciente, lúcido... O momento relatado de quando caí de boca no menino... Pois o padre me mandou rezar uma dúzia de pais-nosso, uma dúzia de aves-maria e passar uma outra hora na sacristia para conversar melhor sobre aquele assunto, só nós dois, me recomendou que tivesse cuidados. Eu recebi a primeira comunhão e nunca mais apareci por lá, tenho cá comigo que ele teria me pedido para mostrar como havia feito com o meu primo para depois me ensinar com maestria a arte da felação.

 

O tempo foi se passando e fui conhecendo outras doutrinas e religiões, eu já tinha uns 20 anos quando um dos meus primos, lutando contra a própria homossexulidade, conheceu a "Renascer em Cristo" e me levou pra lá. A Renascer é essa mesma, aquela do Pastor Hernandes e da Bispa Sônia, aquela louca que grita, aqueles dois que ficaram presos em Miami ano passado, por conta de uns milhares de dólares não declarados, coisa pequena.

 

Eles pregavam a inclusão de todos, especialmente homossexuais e deficientes físicos, isso era início dos anos 90 e havia um monte de gay querendo se curar, a sensação entre os jovens era essa e muitos se forçavam héteros, a mídia incentivava e muitos temiam a aids como punição para seus atos sexuais diferenciados, muitos devem se lembrar como eram as campanhas do governo falando sobre aids... Aids Mata! Letras garrafais em outoors pretos para chocar. Tempos difíceis, sim, mas aquela igreja era excelente lugar para paquera... Por lá conheci meninos que não queriam mais ser gays, mas era um povo bem complicado, sabe aquele clima forte que fica no ar mas não vira nada? Meu primo deu mais sorte e conheceu um namorado, ficaram juntos uns dois anos mas o pessoal da igreja não podia saber deles, nem eu mesmo podia saber, eu desconfiava mas eles negavam e ficavam bravos. Mas era um romance sim e um dia admitiram, ironicamente hoje ambos são héteros, casados, filhos...

 

Nas minhas andanças conheci de tudo, umbanda e candomblé que admiro e respeito, cansei de ir a festas de santo mas nunca me envolvi além do visitante curioso e esporádico, com respeito mesmo e muita admiração. Frequentei templos budistas, duas ou três linhas, seicho-no-iê que li e leio ainda hoje, islamismo, judaísmo, hinduísmo e digo que elas todas são iguais, a princípio com uma base honesta mas vulnerável pois a ação do homem acabou por destruir o que seria benéfico ao indivíduo, em favor da ganância de líderes que visam muito mais a matéria e os próprios interesses, além da justificativa para os próprios recalques. Distorcem tudo.

 

Mas não cabe condenar quem se deixa alienar, mesmo quem está alí rebanho sendo conduzido sem pensar muito pode estar íntegro e de coração limpo, o ônus da sacanagem, se é que existe, estará em quem engana e não em quem foi enganado. Em todo lugar tem gente bacana e os aproveitadores na crista da onda, no cristo-da-onda, bola-de-neve church club, padre Marcelo Rossi e seu primo que lhe trouxe à devoção... Isso mesmo na doutrina que sigo hoje, com senso crítico, que é o Santo Daime, Linha Unificada, Grupo Terra, Universalista mais Unitário que esse e ainda conheço outros além de mim. Que assim seja.  Há dirigentes de bom caráter e que muitas vezes tiram do próprio bolso para manter um trabalho e aqueles que se vangloriam por serem um canal privilegiado e cobram um valor absurdo pelos trabalhos, incitam o separatismo, elitizam a sabedoria que é da floresta, do planeta e visam prioritariamente o próprio bolso e ego - eles também precisam da vaidade e de viagens à Índia duas vezes ao ano, mas ainda assim possuem seus valores (e mesmo que com desdém pelos tantos e próximos méritos alheios).

 

E quando se usa então uma substância "alucinógena" (com a palavra alucinação compreendida como = ação na luz, ou usando-se o termo correto derivado que é "enteógena", pois que age na alma). Aí então, meu amigo, não tem pra onde correr - fica tudo tão cristalino que nem o som da kalimba abafa nossos mais profundos anseios.

 

Voltando ao mundo cristão, eu tenho um amigo que quando o tema é religião sempre faz a mesma pergunta: Se os líderes das principais religiões do mundo voltassem à terra, em especial se Cristo descesse para dar uma volta por aqui, se ele perguntasse quem é o líder atual que dá prosseguimento à sua mensagem e fosse ter uma conversinha, se pedisse para ver o que foi que construído em seu nome nesses 2008 anos, como a sua palavra foi executada por quem a detém... Como estão sendo tratados, mundo afora, as necessidades dos povos, o uso da terra e seus recursos, a inclusão, a igualdade... Será que o papa atual teria a cara-de-pau de dar uma voltinha pelo Vaticano e sorridente, sem constrangimento, dizer que tudo aquilo foi feito em seu nome? A obra máxima, apenas para começar a lista de atrocidades?


Escrito por Tiago às 15h32

votos sinceros

Quarta-feira , 24 de Dezembro de 2008


Escrito por Tiago às 19h46

árvores

Segunda-feira , 22 de Dezembro de 2008

 

Eu nem fiquei contente quando cheguei em casa naquela manhã, nem tinha dormido ainda, e minha mãe me comunicou que vinha um monte de gente almoçar em casa. Isso fudeu com os meus planos de dormir a tarde e recuperar parte do sono perdido, sabe quando você sonha que vai chegar em casa e passar a tarde sozinho amebando e a tarde vira um parque de diversões, com pipoca por todo o tapete? Foda... Sono adiado é sono perdido. Foda também, foda adiada é foda perdida, aliás tudo o que é adiado é perdido. Adiar é perda de tempo. Vai fazer, faz agora, faz logo. Vai dar, abre a perna e larga de frescura. Vai só chupar então cai de boca logo. Chupa que eu dirijo, relaxa que eu te conduzo...

Eu precisava dormir, mas sem chance.

 

Primeiro chegou minha tia pentelha com a minha prima, cinqüentona querida, chegou minha outra tia, sessentona sarada, quase surda, vai usar aparelho no ouvido a coitada... Depois chegou minha irmã, quase quarenta e com tudo em cima, numa boa fase da Vida, minha sobrinha mais que linda de quase cinco, já sabe usar o google e é loirinha, educada, uma princesa, o melhor presente que a Vida já me deu.

 

Veio junto a ex-babá de quase quarenta também com a filha pentelha de uns dez e aquele menino lindo, aquele que nasceu prematuro com menos de um kilo e quase morreu, morreu só o irmão gêmeo dele, mas ele teve paralisia cerebral cujas seqüelas é difícil avaliar. Ele já está melhor que da última vez que o vi, ainda fala pouco, poucas palavras, voz baixinha e fraca, as perninhas são frágeis e aos poucos estão desatrofiando, os tratamentos de reabilitação estão ajudando um bocado, e é tudo pelo pago estado, primeiro mundo.

 

E ele olhava fixo pra mim, olhava pra mim e olhava pro céu e falava "árvores", bem soletradinho, apontava pras flores e pras árvores na rua, parecia hipnotizado tentando me auxiliar a decifrar algum mistério. E ele me hipnotizava, que conexão maluca eu criava com aquele menino, imaginava os tantos desafios que terá para se incluir algum dia, mesmo sem saber ao certo que lógica maluca é essa da inclusão, traga todos para dentro do meu coração, e eu alí sem dormir, num cansaço daqueles de dar dó... Mas eu já tinha até me esquecido do cansaço, não sei como ao certo mas me nutria de algo naquela palavra repetida tantas vezes como um mantra: ár-vo-res, ár-vo-res, ár-vo-res... 

 

Teve uma hora que eu senti que iria apagar, deu tempo exato de me jogar numa cama e alguém me jogou uma manta por cima. Naquela tarde eu dormi um pouco, mesmo quase desistindo do sono, mas precisava descansar esse cavalo aqui. Na madrugada anterior eu não dormi, como gosto de fazer nas madrugadas frias, bebi daquela bebida que tem poder inacreditável, que nos delata a todos dentro daquela verdade, dentro daquela harmonia de pessoas que se querem imensamente bem. Sem julgamentos.

Acordei pior naquela noite e saí de casa com uma febrona daquelas, a febre do planeta, precisava de um hospital.

 

E naquela nova madrugada eu voltava pra casa medicado e sem febre, só pensava que tinha que dormir algumas horas e encarar uma semana pesada de trabalho, semaninha que já passou e correu tudo bem... Pensava no menino no meu colo naquela tarde, evocando as árvores, pensava em mim na minha floresta da véspera, nas respostas que eu sei que nunca vou ter, nas minha leituras que me trazem mais inquietações. Sorrio sozinho no carro, achando de um jeito só meu que esse papo de pergunta e resposta é muito legal nos quadros de televisão, que pra Vida da gente é uma grande perda de tempo ficar relacionando nossas dúvidas com as divagações de alguém. Pra que ficar perguntando, buscando resposta, é tão mais fácil tirar onda da Vida, deixar correr solto. Será?

 

Sei não, sei que agora, uma semana depois e sem febre, ao me lembrar de tudo isso, sinto uma vontade imensa de ouvir aquele balbuciar: ár-vo-res.


Escrito por Tiago às 22h22

embriagar

Sexta-feira , 19 de Dezembro de 2008

"É necessário estar sempre bêbado.

 

 

Tudo se reduz a isso; eis o único problema... Para não sentirdes o fardo horrível do tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas. Mas, de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

 

Contanto que vos embriagueis!

 

E se, algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;

e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,

hão de vos responder:

 

- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor."


Baudelaire.


Escrito por Tiago às 20h48

"Greep"

Terça-feira , 16 de Dezembro de 2008

 

 

Fazia tempo que eu não adoecia, caia de cama... Minha saúde há tempos vai bem, obrigado. Apesar da correria de sempre, com muita atividade, eu tenho uma disciplina razoável com essa coisa da alimentação e atividade física, procuro comer correto e só vez ou outra faço extravagâncias, uma vez a cada dez dias como porcariada, que adoro e fujo, mas esse lance de festa de confraternização me bagunçou geral, churrasco e mais churrasco, sanduiche, bolo com farinha refinada, doces de todos os tipos, caipirinha de saquê com manga e pimenta rosa que ele é fino, cerveja e nesse final-de-semana que seria de descanso eu me empolguei com a presença de tanto amigo bacana e dormi bem menos do que deveria, somem-se aqui muitas emoções que já vinham de alguns dias e eis-me caindo com um febrão de 39.3 no domingão a noite. É mole?

 

Então vamos a um pronto-socorro da Vida tomar dipirona num litro de soro demorado pra cachorro, sentir o braço forte de um enfermeiro gostoso e sair de lá horas depois bem melhor que antes, em direção a uma farmácia iluminada comprar um genérico mais barato de um Alegra da Vida. Gripona que era para ser, dessas que vem derrubando muita gente, mas como tomei vacina preventiva em abril, agora virou apenas uma bela infecção das vias aéreas, com forte fator alérgico. A garganta fica irritadaça e bem vermelha, dói, dá tosse, é uó... Mas, clássico no meu histórico, entra aqui também a coisa da somatização; e para quem acredita nesses papos de metafísica, quem foi que disse que doença tem que ser desequilíbiro por tristeza? Por tristeza, apenas? Por que não desequilíbrio por alegria em excesso, por overdose de felicidade? Sabe quando dá tudo certo e você apenas se questiona pelos exageros cometidos? Mas enfim, o importante é que emoções eu vivi... Saí do Hospital São Camilo as duas e pouco da manhã, digamos que quase novinho em folha, dormi umas horinhas e ainda aguentei o tranco de uma segundona típica. Estou meio detonado hoje ainda, cansado sim, com tosse e corpo dolorido, mas no caminho de volta. E segundo a médica fofa que me atendeu, meus exames de sangue indicaram um exército forte e pronto pra qualquer batalha. E adoecer de vez em quando é bom, não é? Ainda mais pra um cara que se ilude ser auto-suficiente, receber da mamãe uma xícara de chá pode ser um bom motivo pra um sorriso de menino que no fundo sabe ser frágil, mesmo querendo se mostrar uma fortaleza.

 

Eu prometo que brevemente voltarei pra contar do nosso trabalho espiritual, estou ainda digerindo as percepções pós Bar do Irineu. Falar assim pode soar pejorativo a alguns, mas é a forma carinhosa como alguns amigos nos referimos aos estudos com uso de ayahuasca, o tal do chá do Santo Daime, a doutrina fundada pelo Mestre Irineu, aquele negrão seringueiro que 100 anos atrás se envolveu com os índios e trouxe essa benção paara o homem branco. Mas vou deixar pra contar isso outra hora, pois está tarde e ainda tenho que tomar um banho, quero dormir cedo para estar tinindo amanhã.

 

Beijocas.

 

(Editado na manhã de quarta: Dormi que nem uma criança feliz essa noite e estou me sentindo novinho em folha, estou com um pouco de tosse ainda, agora começa a etapa de expectoração, mas estou me sentindo de novo com vitalidade. Melhor assim. Bendito Alegra - genérico fabricado na Índia...)


Escrito por Tiago às 22h02

cera

Sexta-feira , 12 de Dezembro de 2008

 

Final de tarde de sexta-feira e eu ainda no escritório "trabalhando". Na realidade estou fazendo cera, enrolando um pouco até ir embora. Me passam diversos assuntos que gostaria de comentar mas dentro de alguns minutos minha carona chega e vou embora, estou indo pro sítio em São Roque descansar um pouco, então não se assustem com o provável clima de coito interrompido dessa postagem. Essa semana foi intensa, aliás venho de semanas e meses bem intensos, final-de-semana passado trabalhei no sábado e no domingo, dessa forma completei hoje 12 dias direto, sem descanso, acordando naquele horário de peão das 6hs da manhã. Ninguém merece esse sufoco, mas no fundo eu gosto dessa Vida - embora confesse que tem dia que só saio da cama por não ter alternativa "número" B... Algumas vezes chega a beirar a insanidade a quantidade de coisas que tenho que fazer, o escritório é pequeno e fomos todos tomados pelo efeito BomBril, mas não há outra opção, o ponto é que já não me estresso com coisas que no passado me estressavam, e trabalho, apenas. Trabalhar todo mundo precisa, eu já disse que 2009 será um ano de muita prosperidade, então vamos ralar!

 

A posição da minha mesa me contempla com um pôr-do-sol maravilhoso, pensei em tirar uma foto mas há, além desse espetáculo da natureza, um espetáculo da engenharia - uma favelona daquelas - então é melhor buscar uma foto linda na rede para ilustrar esse post. A foto da favelona fica mais bonita mais tarde, com a lua cheia ao fundo, mas nesse horário já quero estar bem longe daqui. Aliás, sobre essas imagens que uso por aqui, eu saio control C control V buscando umas bacanas e as guardo para um instante como esse, vez ou outra uso fotos que eu mesmo tirei.

 

Mais tarde estarei no sítio, com pessoas queridas, confraternizando. Seremos algo em torno de 25 pessoas, nem todas são tão íntimas mas algumas me acompanham há décadas e me conhecem muito bem, sem frescuras. Hoje a minha função será fazer uma sopa de legumes, amanhã tirarei o atraso dormindo até mais tarde, depois do almoço faremos nossa celebração com uso de ayahuasca, o chá do Santo Daime, mergulharemos em contato com nosso íntimo mais profundo e buscaremos algumas respostas para seguirmos mais sorridentes na batalha diária. E no domingo, triste domingo, teremos que passar o dia na piscina, ou no lago, ou na sauna, ou na jaccuzzi, comendo, bebendo e dando muita risada.

 

E na segunda eu apareço por aqui pra contar como foi. Beijos e abraços para todos, até!

 


Escrito por Tiago às 18h18

ressaca

Terça-feira , 09 de Dezembro de 2008

 

 "Eu canto porque o instante existe

e a minha Vida está completa;

não sou alegre,

 nem sou triste:

sou poeta..."

(Cecília Meireles)

 

 

 

 "Um dia a gente chega, no outro vai embora...".

(Almir Sater)

 

 Ficaram as lembranças e a memória na pele...

No passado teria ficado também uma tristeza imensa, mas tristeza e alegria são ilusões às quais muitas vezes é melhor não se apegar e me mantenho em distância segura das bordas desse lodo, macaco velho que sou tenho uma Vida atenta e muitas coisas bacanas para ocupar meu tempo e meu espaço, não me canso de dizer que felicidade e infelicidade são estados imaginários.

 

Pois eu também sou livre, também sou confuso e complicado, todos somos, mas isso não me impede de compartilhar minha Vida com alguém e querer crescer junto, acompanhar e ser acompanhado, não tem nada a ver com dar satisfações... Eu já vivi isso no passado, em paz, e é isso o que quero pro meu futuro, não é querer demais!

 

Desse capítulo, onde por pouco não me tornei coadjuvante, ficou a convicção de que ainda pulsa, pulsa, pulsa esse coração cabeludo e bastante aconchegante, e que estou mais equilibrado, fantasmas não me assombram tanto quanto assombravam no passado.

 

Pois é, 2008 escorrendo pelas mãos...

Outono de amores platônicos,

primavera de trepadas homéricas,

não importa.

 

Tudo é transitório.

 

E que venha 2009, germinando enfim

as sementes lançadas em 2003, 2004, 2005,

2006, 2007, 2008...

 

2009 será um ano de muita prosperidade,

da conclusão de muitos projetos.

 

Nesse instante, se não sou triste...

então o que será isso que sinto?

Poesia?


Escrito por Tiago às 08h27

ana laura

Sábado , 06 de Dezembro de 2008

 

Penso no meu dia com Ana Laura, nós dois que gostamos de brincar que somos quatro, eu Tiago, eu Henrique, ela Ana, ela Laura. Se somos só quatro ainda assim somos muitos, mas somos muito mais que quatro, somos alguns outros tantos que sequer conhecemos, somos inúmeros; mas únicos e exclusivos a cada novo encontro.

 

Um dia a gente se trombou nessa rede, uns três anos atrás mais ou menos, se achou por acaso, eu heterônimo ela também, seus desenhos me encantaram, eu sugeri a ela que os legendasse e daí começou uma amizade bem bacana, daquelas que trazem um monte de riso de alegria, e onde não cabem outros sentimentos que não sejam genuinamente honestos e desinteressados. Um dia a gente marcou um café numa padaria qualquer, viu que nossas afinidades funcionavam além da rede, e desde então a gente se gosta de estar junto e pronto, a gente se sente a companhia ideal pra aqueles eventos que a princípio seriam chatos, tipo casamento de amigo de faculdade quando toda a turma de dez anos atrás vai se reencontrar e festa de final-de-ano de empresa, ou descer bate e volta até o litoral só para buscar uma caixa que está na casa de praia, e já que já estamos por ali não há mal nenhum em um peixinho frito e uma cervejinha.

 

E lá fomos nós hoje, de novo, pra festinha de confraternização da minha empresa, umas duzentas pessoas... Dia hoje de fazer tudo diferente, de comer diferente do habitual, encher a pança de espetinho de boi e frango, arroz-branco, refrigerante (fanta-uva, que eu adoro... adoro mesmo e ainda arroto em seguida, só o arroto é que fiz escondido...). Dia de trocar a vestimenta clássica calça social escura camisa manga longa clara por uma bermuda e uma camiseta "será que ele é?", manter o sorriso de sempre e caminhar com Ana Laura pelas alamedas arborizadas de um camping nota dez. E é engraçado pensar que nesse nosso movimento de bem querer, como somos um homem e uma mulher, as pessoas imaginam o óbvio: que somos um casal....

Povo sem imaginação... E a gente deixa pensar que sim e ainda instiga, então alguém mais curioso pergunta se é minha esposa e eu respondo que "ainda não, só depende dela"... Cada um pensa o que quiser. E é engraçado pensar que aqueles carinhas que até imaginam que eu sou gay, e que trocam olhares denunciadores desde muito tempo, hoje não entenderam nada... Mas a gente se saca, o olhar é o limite, não é? E tem também aquela lenda que diz que "onde se ganha o pão não se come a carne" eu fico na minha, e nem daria mesmo pra me empolgar pois chantagem por assédio é algo que os homens que fazem sexo com homens sabem muito bem como cavar. E como se safar!

 

Mudando um pouco de assunto, sobre o meu romance recém relatado por aqui, honestamente não sei a quantas anda e no que vai dar. Nossas agendas já bastante complicadas e final-de-ano para complicar ainda mais, época confusa para regar emoções e desejos que surgem e nessas de correria tem uma semana que os horários não encaixam e a gente não se vê, e não é por falta de vontade de nenhum de nós, complicou mesmo e isso não é legal, mas os sentimentos bons continuam existindo e a gente sabe bem disso. Um dia acontece. De qualquer forma não ter expectativas e rótulos, e ter a compreensão do outro como o outro é e assimilar sua rotina, ajuda a não criar frustrações. E isso já nem cabe bem mais na minha Vida, macaco velho que sou nem entro nessa mais de criar expectativas absurdas, menos ainda de sofrer pelas frustradas. No começo da próxima semana os horários serão mais fáceis, assim espero, e a gente resolverá isso com carinho e ternura e uma alta dose de testosterona.

 

Mas esse post era para falar da Ana Laura, pra variar um pouco misturei os temas e me alonguei. Queria dizer também que ouço agora "Symphony in C", de Bizet, em alto volume que vem lá do meu quarto, com as janelas do apartamento quase todas abertas nessa tarde quase noite sorridente com uma lua hoje maior que ontem lá no alto, se aproximando de dois planetas que mais parecem estrelas, e ainda um sol que antes de se esconder reflete lindo nos prédios em volta, sorrio e concluo que a Vida pode ser linda, sem encucações, se a gente assim decidir, ou um compêndio de desculpas e mais desculpas que não levam além do próprio umbigo. Pois bem meninas: Ana Laura e outras amigas leitoras, Mona, Tiffany, Mel, Mié e os meninos do mundo todo, sejam felizes e me façam feliz... Agora tenho que tomar banho, colocar uma roupinha não defumada e vou a mais uma festa, pois a Vida é festa. Meu querido está com a família, assim me disse e eu acredito de verdade, se essa é a verdade dele então essa é a verdade que devo assimilar, e Ana Laura vai a um sarau, amanhã me manda as fotos lindas que tiramos e essa semana posto alguma por aqui.

 

E Vivam a Vida, porque hoje é sábado!


Escrito por Tiago às 19h11

durex

Segunda-feira , 01 de Dezembro de 2008

 

 

Enquanto a Cura não chega,

Prevenção é Amor à Vida. 

 S e m p r e .


Escrito por Henrique às 22h22


 m O O n 

Conscientize-se!

free counters

XML/RSS Feed

IBSN: Internet Blog Serial Number 012-12-0-2012