BLOGS: Tiago Quintana (Heterônimo+)

Dra. Geily

Quarta-feira , 28 de Janeiro de 2009

 

Naqueles dias eu fiquei bem mal. A imagem dela no espelho me dizendo que o importante era o momento presente não me saia da cabeça, eu só chorava e não conseguia me concentrar em nada. Fiquei assim uns três dias em estado de choque, trabalhava numa empresa de telecomunicações no centro da cidade e tinha um gerente que não ia com a minha cara, naquela época eu sabia muito pouco sobre mundo corporativo, gestão e esses papos todos, mas sabia que ele não gostava de mim. 

 

O tal gerente, pra me ajudar, me chamou na sala dele e me deu um esculacho, disse que eu tinha que reagir. E eu só chorava... Minha resistência baixou e eu caí de cama com uma gripe daquelas. Mas sabia que tinha que reagir. Meu namorado também ficou mal, mas ele era mais forte que eu, ou talvez nem fosse mais forte, fosse apenas mais calejado, tinha sofrido bem mais que eu, até fome dizia que passou antes de vir pra São Paulo com a família, quinze anos antes de me conhecer. O que eu sei é que acabei reagindo. Missa de sétimo dia, o semblante de sofrimento da sua mãe adotiva, o filho de quatro anos de idade com cabelo tigela, carinha de índio, tentando entender onde é que estava a mãe. A morte é foda, mais foda ainda quando envolve crianças, ou porquê ficam órfãs ou porquê deixam os pais e se vão muito antes da hora.

 

A minha reação me custou o emprego. Num dia, ainda abatido, meu gerente falou que eu era mole. E eu respondi que era uma pessoa, que ele era um babaca sem sentimento e que eu era muito melhor que ele. E era mesmo, e sou ainda. E digo isso sem vestir a máscara da superioridade, não preciso dela (embora saiba usá-la, quando necessário). Máscara de superioridade é a tal da arrogância, sinal inequívoco de insegurança. Sei bem o que estou falando. O fato é que ele dependia de mim, não sabia nada sobre telecomunicações e eu sabia tudo. Não que eu fosse insubstituível, mas era bom naquilo que fazia. Muito bom mesmo, sempre fui foda trabalhando. Se é pra fazer vamos fazer direito. Mas não quero falar dele não.

 

Eu literalmente despiroquei. Marquei minhas férias num momento que não precisava, fui pra praia com o namorado, descolori o cabelo e voltei ruivo pro escritório. Muito pra cabeça provinciana de um cara limitado educado numa igreja conservadora na periferia e que com muita bajulação conseguiu um cargo classe média. Ele me ameaçou e eu mandei que ele fosse à merda, que se não gostasse do meu cabelo que me mandasse embora. E ele mandou. Nem liguei, fui ao Iguatemi e comprei uma calça linda pra comemorar. Linda nem era tanto, mas valeu assim mesmo. E como já estava chegando o carnaval fui pro Rio de Janeiro me divertir.

 

Alugamos uma kitnete em Copa, cabiam seis pessoas, segundo a dona. Fomos em doze. Na verdade cabiam três, tínhamos que revezar pra dormir, some-se a isso bebedeiras e alimentação errada, sol o dia todo e mais aquela tristeza que insistia em se manter próxima, uma semana inteira nessa farra e voltei pra São Paulo com hepatite e herpes labial, que até então não tinha... Mas era mais que isso. Foi nessa viagem que perdi os pudores de ficar pelado na frente de alguém, imaginem um banheiro com o número dois sendo esculpido enquanto alguém toma banho e outro alguém faz barba. 

 

Quando minha amiga me ligava ela se identificava como Dra. Geily. Era um heterônimo dela, uma personagem. Dizia que era psiquiatra, dava umas dicas em tom de brincadeira mas com conteúdo muito sério. Eu tinha os personagens que completavam nosso quadro, tinha um pedreiro baiano arretado, uma bichinha com a língua presa, um alemão tarado por bundas de homens e de mulheres e ela dava suporte terapêutico, algumas vezes a gente ia tão fundo naquela viagem que chegávamos a chorar. Nem meu namorado, e nem o dela, entendiam aquela nossa conexão. Mas não tinham ciúmes não. E tudo aquilo acabou, sem dar sinais de que estava chegando ao fim.

 

De volta do carnaval no Rio, primeiro e último, fiquei da cama cinquenta e seis dias. Hepatite brava, daquelas que te deixam alaranjado e com enjoo lascado (sem acento... gostava mais de enjôo). Os amigos ligavam, eu sumi de circulação e comentavam que eu estava mesmo era com aids. Acho que foi naquele contexto que minha resistência baixou e que abri a guarda. Não sei, tenho a intuição de que foi sim por conta de tudo o que estava vivendo. Era um desgosto só, tratei e me recuperei da hepatite, arranjei um outro emprego melhor que aquele do gerente picareta, oito meses depois capotei o carro da empresa na Dutra, deu perda total e não saí com nenhum arranhão, apenas um torcicolo e só não fui projetado pra fora do carro, que nem ela, pois estava de cinto de segurança. Segundo os bombeiros, se ela estivesse de cinto teria sobrevivido. E eu acredito nisso.

 

Quando o telefone tocava eu pensava que era ela. Sonhava com ela. Um dia tive um febrão, delírio total, e desci do apartamento de madrugada pois ela tinha me chamado e eu a vi pela janela. Naquela época eu era praticamente virgem de drogas, tinha engasgado com um baseado uns três ou quatro anos antes e era bem careta pro assunto. Questão pessoal, puramente. Já ela gostava de dar uns peguinhas, mas se controlava.

 

Mais um mês e novo acidente de carro, grave também mas menos que o primeiro. Eu voltava pra casa de madrugada, cansado e com sono e cochilei por breves segundos. Dessa vez com o meu carro, prejuízo material apenas. E foi naquela madrugada de Halloween, na Marginal Pinheiros enquanto esperava o guincho, que decidi encerrar o ciclo de lamúrias pela perda da minha amiga. A Vida é muito curta pra gente ficar pelos cantos chorando. Cheguei em casa, acendi uma vela, fiz uma oração e me deitei. Sonhei com ela e quando acordei escrevi um texto que anos depois, num momento infeliz de descontetamento com a Vida, joguei fora. Se eu forçar a memória o texto volta. Mas será que precisa?

 


Escrito por Tiago às 22h11

joaninha

Domingo , 25 de Janeiro de 2009

 

A gente se viu pela primeira vez em Santana, lá no metrô, naquela saída conhecida como rampa. Era uma noite qualquer de sábado do ano de 1986, eu já sabia no meu íntimo muito mais sobre mim mesmo do que desejava delatar aos amigos, sabia que gostava mesmo era de meninos mas meninas ainda me atiçavam e era gostoso tirar onda com elas. E foi talvez por essa razão que a gente não foi nem um pouco com a cara um do outro, naqueles primeiros contatos.

 

A gente tinha quase a mesma idade, eu era exatos 347 dias mais novo, soube depois quando nos tornamos amigos inseparáveis. Pena que durou tão pouco e que nos separamos de forma tão brutal na melhor fase do relacionamento. Um dia a gente chega, no outro vai embora. Naquela noite do sábado ela estava acompanhada com um cara estranho, daqueles que fazem tatuagem vagabunda no braço e depois se arrepende, que acredita ser possível raspá-la na unha e vai se auto-mutilando, transformando o desenho ordinário em cicatriz... E eles malhavam, copiosamente. Ela olhava pra mim, eu olhava pra eles, em verdade olhava mesmo era pra ele dando a ela a impressão de ser ela o objeto do meu desejo. Sempre me amarrei em rapazes ordinários.

 

Sábado seguinte, mesmo horário, mesmo local, a mesma garota agora com outro ordinário, tão atraente quanto o anterior. A gente não conversou, nem na primeira e nem na segunda vez, soube por amigos que ela era assim um tanto quanto volúvel, gostava de se sentir desejada e tinha uma libido acelerada, libido nervosa mesmo. E assim foi por algumas semanas, eu sempre só e ela sempre muito bem aconchegada. Até um dia em que finalmente apareceu sozinha e a gente conversou. E foi naquela conversa que a gente se encantou um pelo outro. Eu compreendi que ela não era vulgar, como rotulara inicialmente, apenas que queria viver intensamente. E ela compreendeu que eu não era esnobe, apenas reservado, mas a gente só confessou isso meses depois quando as cartas todas estavam dispostas.

 

Ela nunca me contou em detalhes, pois esse era um assunto proibido; soube por amigos em comum que engravidara aos dezesseis anos do namoradinho de dezoito, e que pouco antes do filho nascer chegou mais cedo em casa e o flagrou engatado na cama com o amigo inseparável. Nem precisou se casar. Mas nem por isso tinha raiva de homossexuais, tanto que um dia, um pouco embriagada, lá mesmo naquele bar onde íamos sempre, se agarrou com uma menina no meio da pista sem se constranger com quem estava por perto. Mas ela não era lésbica, era uma pessoa livre que se permitia ser. Simplesmente ser.

 

Um dia eu não saí com esses amigos no sábado, fui dar pinta na Marquês de Itú e lá conheci um moço um pouco mais velho que eu que me encantou, começamos um romance e logo o levei pra conhecer a minha turma. Mas não o apresentei como namorado, tinha algum bloqueio ainda com esse rótulo e era melhor que fôssemos para eles apenas amigos. E ele se envolveu com a turma, criou vínculos e se fez querido também. Os meses se passavam e a gente sempre junto, até um dia que ela me disse que estava apaixonada pelo meu amigo e que sentia que ele também a olhava de forma diferente. E foi naquele instante que eu tomei coragem e disse que não, que ele não a olhava de forma diferente, que era apenas admiração. Ela argumentou que uma mulher sabe quando está sendo desejada por um homem e então eu falei na lata: não é nada disso, ele é meu namorado!

 

Ela me abraçou, disse que me adorava e que sempre quis ter um amigo gay e que agora tinha dois. E a gente não se separou mais. Meu namorado a indicou pra uma vaga na empresa onde ele trabalhava, ela foi aprovada, passaram a trabalhar juntos. Eles trabalhavam na Rua 24 de maio e eu na Rua São Bento, apenas o Viaduto do Chá nos separava. Ela arranjou um namorado bacana, parou de fumar, de encher a cara, voltou a estudar e estava feliz da Vida. Os meses foram passando, nossos romances iam bem, nossa amizade melhor ainda e a gente dava muita risada juntos. Toda tarde, após o trabalho, a gente se encontrava e fazia alguma coisa junto, nós três.

 

Final de ano fui com minha família e meu namorado pra Caraguatatuba, ela com o dela pra Ubatuba. Naquela época meus pais ainda não sabiam da minha sexualidade. Voltamos no domingo, 4 de janeiro, e nos encontramos no meio da tarde, pra matar a saudade de uma semana longe e comemorar meu aniversário que seria três dias depois. Marcamos na casa do seu namorado e sairíamos pra dançar, iríamos à Nostro Mondo pra eles conhecerem. A Nostro Mondo é a boate gay mais antiga do Brasil, a dona na época era uma travesti de nome Condessa Mônica que morreu alguns anos depois, numa época em que se morria de aids com muita facilidade.

 

Me lembro dessas nossas últimas horas juntos, ela saiu do banho, sacou um secador de cabelos e se fez ainda mais linda; chovia muito e eu, ansioso que sempre fui, disse que não adiantava muito todo aquele trabalho, era sair na chuva pra estragar tudo. E ela me disse uma frase que nunca mais me saiu da cabeça, me lembro com perfeição dela, do secador, da luz, do espelho:

 

- Não importa como vou estar amanhã.

O que importa é que agora,

nesse instante,

estou maravilhosa.

 

Fomos pra boate, nos divertimos, bebemos um pouco. A Condessa a chamou no palco, ela deu risada, falou que era uma travesti também e a Condessa elogiava sua beleza e alegria contagiante. Bebemos um pouco mais, ela e o namorado brigaram e foram embora, ela embriagada chorando, ele bêbado enciumado por conta dela conversando com um gay qualquer. Foram embora e nós ficamos mais um pouco.

 

Isso foi há 22 anos. Na manhã da segunda-feira meu namorado me liga aos prantos. Ela não foi trabalhar. Sua mãe ligou contando de um acidente de carro a duas quadras da sua casa, ele bêbado bateu o carro a 120kms por hora num poste, ela foi arremessada pra fora e morreu minutos depois. Teve o rosto desfigurado. Ele não morreu por azar, mas ficou de tal forma sequelado que não viveu mais, nunca mais nos vimos. A família dele, que era influente, alterou os dados do boletim de ocorrência: ele não estava bêbado e foi fechado por uma moto. Assunto encerrado. Soube que ele ficou perturbado, não dizia coisa com coisa, teve o rosto reconstruído, ficou meses hospitalizado, quando voltou pra casa se escondia na casinha do cachorro. Mas deve ter se recuperado, refeito a Vida...

 

A frase dela, naquela tarde chuvosa me olhando sorridente pelo espelho, nunca mais me saiu da memória.

Hoje ela completaria 43 anos.


Escrito por Tiago às 12h22

o sagrado e a mariposa na ducha

Quarta-feira , 21 de Janeiro de 2009

Viva a era de Aquário.

 

Daquele meu romance de outono, sete vezes aqui transformado em prosa, verso e poesia, não sei bem ao certo ainda se ficou algo além da memória na pele de trepadas homéricas e divertidíssimas, sem demérito algum a um menino lindo e talentoso, diria também genial e que terá um futuro brilhante, por conta de faces lindas, que coloriu minhas noites e madrugadas e me deu um ar menos sério, ao menos quando estávamos juntos. A gente se divertiu à beça, leu poemas de Hilda Hist, assistiu filmes bacanas, cozinhou e foi feliz junto, deu risada da Vida e dormiu de peixinho da Hering num colchãozinho com ternura. Creio talvez que não tenha passado disso, pois não era para ser mesmo, nem por mim, nem por ele, nem por nós, se é que algum verbo conhecido foi conjugado no plural; fomos deliciosamente eu e ele, por brinde não deu tempo de nos tornarmos enfadonhamente nós.

 

Um dia ele me emprestou um livro dizendo que eu tinha que ler urgente, que o livro era a minha cara. Eu perguntei sobre o que era e ele respondeu que não sabia ao certo, que o havia ganho de uma pessoa muito querida que eu adoraria conhecer, depois deu uma torcidinha no nariz e ponderou que talvez não, que eu devia ler o livro e seria melhor não conhecer a pessoa, que eu talvez a achasse péssima, mas não nos alongamos nesse pensamento. Ávido por leituras sugeridas que sou e sempre serei não questionei e trouxe o livro pra casa, na mochilinha azul de instigar ereção matinal, lembram dela? Mas acabou entrando numa fila e só depois do romance encerrado tive a satisfação de ler o tal livro, "O sagrado". Devorei-o em meia dúzia de trajetos de ônibus pro trabalho, adoro ler com a luz natural da manhã enquanto paquero meninos com suas mochilas.

 

Eu não sei o que se passou na cabeça do meu então menino romance, quem era a tal pessoa que o presenteara e nem qual a conexão que ele criou para me emprestar a obra, aliás isso não importava e menos ainda nesse instante. Sei agora que o autor é um rabino gaúcho, capricorniano, gaúcho como tantos outros mestres e capricorniano como esse que escreve isso que você lê, num instante em que eu já estarei fazendo outra coisa. Presente seu do meu pretérito.

 

Fazendo uma aspas enorme tenho que falar pro melancia, lindo, que concordo com ele que esse papo de contagem de células e carga viral enquanto status é uma bobeira, muitas dão muito mesmo e felizes sem camisinha, ninguém faz bareback em darkroom de boate nenhuma achando que tudo bem, elas tem (caiu a porra do aSSento?) mesmo muita noção do que é perigo hoje em dia. E sorte delas que herdaram um monte de remédio bacana pra pegar de graça na fila de onde quer que seja, graças aos protocolos que a gente encara, por amor à ciência e à pele linda..  Apenas por estarem zeradas, antes ou depois do tal contágio. Acreditou? Eu também, querido! E vamos cuidando dos nossos pescoços, do rosto, do bracinho fininho e fazendo yoga no tal parque em Paris que você vai encontrar a Tiffany. Aliás, Tiffany e amigos queridos, a tal gata aí de baixo agora se chama Nina, vai morar em Santa Cecília, numa kit com a Pat. Chique né? A Pat é atriz, uma linda. Voltando ao meu melão de água, britânico que sou, naturalizado, CD4 e CV oscilando na bolsa podem fazer com que as células de alguns, mesmo poucas, sejam mais eficazes que as de outros em grande s quantidades. Tudo é mesmo muito relativo e meus números para mim são do meu gráficio, do meu histórico. Gosto deles, procuro manter, como brócolis e hot-dog lá no  Aroucheque adoro e me faz gente. E que o bem estar é mesmo o que vale. E parabéns para nós que suportamos tantos dias difíceis e estamos lindos. A hamburgueria fechou, meus amigos estão lindos, dezenove anos juntos esse ano. Beijos.

 

 

Voltando: presente pra você, passado pra mim... Falo de novo do livro: pois que eu não sou crítico literário e se alguém quiser saber mais que pesquise pelo nome do autor e título da obra, o google está aqui pra isso, o que sei é que a obra me pegou pela simplicidade e comunhão com os meus pensamentos, o meu menino tinha mesmo que ser libriano. Librianos em geral me desvendam com facilidade, facilidade essa quase igualada pelos geminianos e só superada pelos aquarianos, meu ascendente por misericórdia e benção. Suspiro e digo que amo me relacionar com aquarianos, tão adiante na visão do mundo - simples como ele deveria ser. Aliás hoje contratei um, lindo. Bofinho, sorriso lindo.

 

 

O livro desmonta o misticismo e o esoterismo pentelho, que eu adoro, sem ser chato, provoca reflexão superficial evocando o livre-arbítrio, o direito às dúvidas e incertezas que todos temos e que tanto insistimos em negar. Muitas vezes o autor fala o óbvio, o que me agrada pois sou da tese de que tudo acaba sendo o que era de se esperar, não há muito espaço mesmo pro novo, buscamos portos seguros e damos passos de formiguinha quando temos potencial para saltar montanhas. Mas é uma leitura agradável que brinca com a mediocridade com a qual em geral enfrentamos o cotidiano.

 

É muito mais fácil vestirmos a máscara de belos, bem sucedidos, influentes e bem resolvidos que assumirmos pro melhor amigo que estamos com medo, minha geração sabe bem do que é que estou falando. Como diz o autor, a capacidade humana de auto-engano é espantosa! E outro louco, que nem o autor, eu e você, Renato Russo um dia disse que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, exemplos inequívocos do que eu, o autor e o Renato estamos falando, só para citar o colorido pink money mundo fashion carão tô feliz tomo ecstasy sim mas não assumo que tomo prozac, aparecem aos montes na blogsfera, não é?. Que bicha chata é essa, meu Deus! Aumenta a dosagem ou vá as compras, irrite-se menos com as coisas banaias, teu mal é mesmo carência e falta de rôla. Queridinha!

 

 

O autor em questão, Nilton Bonder, cinquentão boa pinta aparentemente em paz com suas angústias, não transformadas em lamúrias nem em auto-afirmação, cita uma "Ética dos Ancestrais" que - pergunta respondendo -  existem quatro pilares de sustentação no mundo moderno, ávido por massificar, e que seriam o suporte da tal difamada auto-estima:

 

"Quem é sábio?

Aquele que aprende de todos.

Quem é poderoso?

Aquele que contém o seu ímpeto.

Quem é rico?

Aquele que se satisfaz com o que é e tem.

Quem é respeitado?

Aquele que respeita os outros."

 

Todas essas divagações parecem loucura e talvez o sejam, e, que bom que escrevo sem saber o motivo, sabendo que alguém vai ler e comentar, no mínimo o melancia, a Tiffany meu ibope sobe efeito Viagra e a Mona, querida e a Mel, minha afilhada, quem sabe o Moacir, o Fabrício e outros tantos queridos. Já não sei mais o que é certo ou o que é errado, permito-me todas as incoerências que no passado condenei. Me inspiro em autores que surgem do nada, recorro aos meus mais que manjados amigos cantores poetas putos baratos drogados, de outrora e de sempre, misturo as estações e sigo na batalha, alegre e retumbante como bambi saltitante entre estados de humor que expressam o meu momento e as minhas circunstâncias, penso na balada do louco na voz dos Mutantes e não vou dizer que louco é quem me diz e não é feliz, volto na frase preferida de que a felicidade é um estado imaginário e é melhor imaginar as coisas assim, felizezz, com dois zz mesmo que é para ressaltar a importância desse estado de espírito, por mais que não haja evidências suficientes para tal. Tal o que, talco? Subo nesse palco com o bumbum de nenê pálido.

 

Para encerrar, e não ficar mais chato ou louco ou débil do que já sou, vou usar um outro texto que recebi de um querido também gaúcho, leitor amigo assíduo desse blog, enviado outro dia por email, é de autoria do Khalil Gibran e fala sobre a loucura:

 

"Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas, as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas. Então, corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando: Ladrões, malditos ladrões!

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo. Quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: É um louco!

Olhei para cima para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!

Assim me tornei louco, e encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura. E a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que diz nos compreender escraviza alguma coisa em nós."

 

Isso aí, mais uma vez escrevi um monte de bobagem (bobagem o caralho!) e termino do jeito que mais gosto: sem ser conclusivo! É por isso que tanto admiro quem tem vocação para me acompanhar nas minhas viagens, gosto mais de quem, assim como eu, lê em busca de perguntas e não quem prefere as respostas prontas!

 

(para quem se interessou, eis a capa do livro citado na estação central...)

:)


Escrito por Tiago às 23h46

me leva pra casa?

Domingo , 18 de Janeiro de 2009

Gata para adoção

Nome provisório: Tiffany

...

Ela estava abandonada numa escadaria no bairro de Perdizes, sofrendo maus-tratos por crianças sádicas, foi recolhida e cuidada nesse final-de-semana mas a família já adotou outro gato em julho, o Leonardo, e não quer ficar com mais esse bichinho.

 

Muito graciosa, carinhosa, carente, educadinha já sabe fazer xixi e cocô na areia, uma verdadeira lady... Lady entre aspas pois o cocozinho dela fede à beça... Até euzinho aqui, que nem sou chegado em animais de estimação, fiquei tentado em assumir essa responsabilidade, mas não tenho vocação e nem tempo pra cuidar de bichos.

 

Se alguém se interessar entre em contato.

Idade estimada em um mês. Sem raça definida.


Escrito por Tiago às 14h00

21ml

Quarta-feira , 14 de Janeiro de 2009

 

Hoje foi dia da "colheita" de sangue para avaliação do meu quadro geral: contagem das células CD4, que são aquelas que medem a capacidade de reação do organismo, do sistema imunológico, contagem da carga viral pra hiv, hemograma completo para avaliar a reação do figado, pâncreas e outros órgão aos medicamentos que tomo e mais as sorologias todas... Digo "colheita" e não coleta pois são cinco tubinhos, quatro de 4ml e mais um de 5ml, o sangue de um soropositivo deve ser testado no mínimo três vezes ao ano, isso quando está tudo bem, como no meu caso. A última vez que me submeti a esses exames foi em agosto do ano passado.

 

Mas é uma maratona um tanto quanto desagradável; tenho que fazer 12hs de jejum absoluto e eu odeio ter que ficar sem comer tanto tempo, fora acordar ainda mais cedo que de costume, madrugar no Hospital das Clínicas, encarar filas e mau humor de funcionário público mal remunerado e descontente com a Vida e aqueles pacientes que mais parecem doentes profissionais, imaginem pessoas e mais pessoas com quadros diversos que se juntam em uma fila e sentem prazer em falar das suas doenças, lamentar, reclamar, criticar o governo. Algumas vezes aquela fila é uma sala dos horrores, tem muita gente definhando por lá e acaba sendo também um celeiro de doenças, em especial das respiratórias.

Tudo bem qua na fila rolam umas paqueras...

 

Eu tenho um convênio médico particular, de boa qualidade, mas a logística do serviço público funciona bem e os resultados dos exames vão direto para o meu prontuário. Se eu fizer particular enfrento menos fila, mas tenho que buscar os resultados ou pagar para entregar, além de pagar 30% do valor à título de co-participação, o que nem é tão pouco dinheiro assim, depois levar impresso pra médica, esperar que ela analise. Já no serviço público quando chego à consulta já está tudo lá, avaliado, a consulta rende muito mais e acaba se transformando numa sessão de terapia, bate papo sobre assuntos do cotidiano, adoro a minha médica atual, inteligente, sensível, mente aberta e sei que ela também se identifica comigo, ao todo ela monitora umas seiscentas pessoas a grande parte não compreende com clareza as suas instruções, a importância da medicação e alimentação regrada.

 

Agora é aguardar dia 09 de fevereiro quando tenho consulta para ouvir o que ouço sempre: que estou muito bem, com carga viral indetectável, com CD4 lindamente na faixa de 700 e que todos os demais exames estão em ordem. Quando muito ela vai me falar dos triglicérides, que as vezes sobem um pouco por erros na alimentação, como por exemplo comer pizza a noite pouco antes de dormir, além de uma tendência genética de tê-los alterados, pois tanto minha mãe quanto meu pai tendem a ter valores um pouco acima do limite. No mais é seguir firme e forte e comemorar com a minha médica os meus 16 anos consciente da minha condição sorológica.

 

Isso mesmo, 16 anos que completarei no dia 04 de fevereriro. Muita coisa mudou, pra melhor, e vamos seguir confiantes que dias aindas melhores virão. E que esses meus 16 anos sirvam de inspiração para quem há pouco se descobriu nessa encruzilhada, é ter fé e juízo, confiar na Vida e seguir firme na batalha. Se eu estou conseguindo sobreviver a essa doença, você também pode! E lembrar também que, enquanto a Cura não chega, não há mal nenhum em tomar alguns cuidados... 


Escrito por Tiago às 23h38

criar

Domingo , 11 de Janeiro de 2009

 

Ando sentindo uma falta enorme das minhas pinturas, tem quase um ano e meio que não me distraio com as minhas telas e tintas; ando sentindo uma saudade enorme da minha culinária, eu que adoro cozinhar e inventar receitas ando com um desejo enorme de ir a feira escolher as coisas que quero preparar, depois ir pra cozinha fazer o meu almoço, ando sentindo até uma certa tristeza por não conseguir fazer mais isso. Não sobra tempo, infelizmente, o máximo de arte que consigo fazer é divagar por essas bandas, escrever como terapia, sem nenhum complexo.

 

 

Escrever é prazeroso, com certeza, mas pintar quadros e cozinhar é muito mais, quem gosta das artes plásticas e da culinária sabe bem o que é que estou tentando dizer. Mas não sobra tempo livre, é um monte de atividade, não há espaço para produzir arte, e talvez com tempo e espaço faltasse a inspiração, que nem sempre vem junto com o desejo de produzir algo novo. Não sei, eu falo que talvez faltasse mas ela nunca me faltou, era começar a fazer que quando me dava por conta havia uma obra pronta, muitas vezes executada num transe difícil de compreender, quem dirá de explicar.

 

 

O que sei é que agora, olhando fotos de quadros antigos, como esse da foto (uma tela de 1,20m x 0,80m) me deu uma vontade fora do normal de retomar mais essa atividade, que tantas alegrias me trouxe nos últimos 15 anos, quando produzi um acervo bacana de mais de 200 peças, muitas apresentadas por aqui. Mas não, ultimamente tenho sido trabalho, trabalho árduo ainda que gratificante. Me lembro que no ano passado, nessa mesma época, minha Vida estava bem mais calma, fazendo apenas o que queria fazer, com obrigação quase nenhuma. Mas a mamata acabou. Como dizia minha terapeuta, o mundo é capitalista e é bobeira lutar contra essa verdade, renda-se a ela, trabalhe e compre uma porra de carro novo todo ano. A mamata acabou sem que as contas ficassem atrasadas, mas o mundo te cobra e por mais que muitas vezes você queira dizer foda-se o mundo, não dá para ser assim. Sabemos bem disso, contas e mais contas, mimos e mais mimos...

 

 

Mas que seria muito bom viver de arte, culinária e literatura, num mundo onde as pesssoas apreciassem isso naturalmente... Disso eu não tenho dúvida, tanto que tentei e perseverei por longos meses. Mas tem hora que não adianta mesmo lutar contra a correnteza. E fico aqui remexendo meu mental e concluo que estou voltando a ser um cara que pensei que não existisse mais. Sorte minha? Espero que sim.

 


Escrito por Tiago às 09h30

niver

Quarta-feira , 07 de Janeiro de 2009

 

Só para deixar registrado: 42 anos de Vida hoje...

Outra hora volto pra escrever sobre as comemorações,

agora estou cansado e com sono e amanhã levanto cedo!

 

(Post editado e publicado em 11 de janeiro: Não deu tempo de voltar pra contar nada, nem de comentar os comentários dos posts anteriores, com o lance da reforma do apartamento minha quinta, sexta e sábado foram insanos. Imaginem conciliar trabalho com uma reforma do outro lado da cidade, 25kms de distância, numa cidade louca como São paulo. Sem chance, quinta trabalhei acelerado pra poder livrar a sexta, sexta fiquei em função dos pedreiros das 9hs as 21hs e sábado fiquei na função faxina e inquilino também o dia todo. O apartamento ficou lindo, mas é melhor fazer uma nova postagem, não é?)


Escrito por Tiago às 22h34

alguém

Domingo , 04 de Janeiro de 2009

 

Hoje foi o aniversário de 70 anos do meu pai, fiz uma presença e convidei a família toda pra almoçar numa churrascaria na Alameda Santos que é bastante frequentada (sem trema...) por gays no almoço de domingo. E lá estava eu com papai, mamãe, irmã e sobrinha, fartando-me no buffet de saladas enquanto eles se empanturravam de picanha, maminha, linguiça (cadê a porra do trema, lingüiça sem trema é um horror...).

 

Restaurante mais ou menos cheio, alguns gays com suas mães, outros com a vovózinha, outros com seus pares de longa data, alguns com ares de terem se conhecido na véspera numa balada que virou motel, café-da-manhã e almoço; além dos tradicionais casais héteros, afinal eles são maioria e estão por toda parte! Um lugar bacana, sem pretensões de ser chique ou referência pra alta gastronomia, e o principal: cobram um valor justo pelo que oferecem, com sobremesas inclusas, sem susto na hora da conta.

 

Minha mãe tinha pensado fazer um almoço em casa, achei bobeira pois ela sempre inventa um monte de coisa e acaba trabalhando além da conta. E por mais que eu adore cozinhar ando meio distante dessa função, e como tenho trabalhado bastante tudo o que queria era descanso no domingão. Além dissso não é todo dia que o nosso pai-herói completa 70 anos, estamos numa onda de harmonia familiar, achei por bem convidá-los e aproveitar a ocasião que não podia passar em branco. Divertidíssimo.

 

Interessante que a minha mãe saca tudo que rola em volta. Ela e minha irmã, já meu pai é meio desligado (se bem que ele está desconfiado que o cardiologista dele é biba...). Minha mãe já saca quem é gay, fugindo daqueles estereótipos óbvios, e fica observando, discretamente, para ver quem é que eu estou filmando, quem é que eu estou paquerando, parece uma interceptadoras de olhares e flertes. Acho lindo isso, sabia? Poder paquerar um rapaz sem ter que ficar disfarçando ou criando temores inúteis... Ela percebe quem é o rapaz que me interessou, olha pra mim e dá um sorriso de aprovação; e fora desse contexto de almoço no domingo ela vira e mexe me pergunta se eu estou saindo com alguém, se estou namorando, eu até conto alguma coisa mas tenho por princípio só apresentar namorado depois de uns 3 meses de romance, acho que é uma forma de me preservar. Se bem que faz muitos anos que não apresento ninguém em casa, faz tempo que não namoro mais de 3 meses com alguém. Ela me cobra, é verdade, fala sempre que fica mais tranquila (qüi... rs... )quando sabe que estou namorando, e hoje como estou morando com eles ela faz questão de me dizer que se eu estiver namorando posso trazer o consorte para dormir em casa.

Menos, mamãe, menos... Se eu entro nesse embalo é capaz dela bater na porta do meu quarto com uma bandeja de café-da-manhã, flores e e um pacote de camisinhas aromatizadas sabor framboesa... Devo estar preparado pra tudo!

 

E não é que num determinado momento ela me disse que teve a sensação de que eu os tinha convidado pro almoço e que aproveitaria o momento para apresentar alguém? Um namoradaço lindo... Ela disse que tinha sonhado com isso, que eu estava namorando uma pessoa muito bacana e que eu estava muito feliz nessa relação. Será que sonho de mãe, sonho dessa natureza, é pressentimento? Ou desejo apenas de me ver menos só, menos no circuito casa-trabalho, companhia de amigos? Acho bacana isso, principalmente se pensar que 20 anos atrás ela hostilizava meus amigos que me ligavam em casa, sendo ou não gays, sendo ou não namorados ou pretendentes, teve até colega de trabalho que foi agredido, apenas pelo fato de serem homens me procurando... Dou um descontaço pois naquela época pra eles foi bem difícil assimilar minha homossexualidade.

 

Os tempos mudaram. E a Vida está mais simples assim, eu não preciso me esconder, criar histórias e inventar mentiras que mais cedo ou mais tarde acabam caindo por terra. Não consigo me imaginar tendo que inventar histórias pra justificar meu cotidiano peculiar. Devemos pensar que, no fundo, o que nossos pais querem é nos ver felizes, não é? E se no passado ela me imaginava casando com uma moça virgem, de boa índole e constituindo uma família legal, com filhos e casa na praia, hoje é só trocar a moça virgem por um rapaz de boa aparência, discreto e culto, bem educado. Os filhos e a casa na praia podem continuar existindo, ela até me pergunta se eu não penso em ter filhos, ou adotar algum... Mas não tenho esse desejo de paternidade não, ser tio é muito mais simples.

 

E eu me lembrei agora de um post da minha querida Mel, minha afilhada aqui no MixBrasil, mãe de um rapaz gay lindo que estuda na USP, em que ela viajava na ideia (não acentuar ideia é foda...) de fazer pipoca pro filho e pro namorado dele, pra assistirem tv no domingão após o almoço... O que digo é que é bem mais fácil viver assim, vocês não acham? Sem mentiras, sem medos, sem o tal do armário... Afinal não adianta sair desse tal armário sozinho, ir pra micareta beijar 200 e na segunda-feira aguentar a família criticando as imagens que viu na tv. Como costuma dizer a Edith Modesto, quando um filho sai do armário é natural que os pais entrem, há um período de maturação que temos que compreender, e eu complemento dizendo que muito mais difícil que se assumir intimamente é uma família assumir, sem contrangimentos e com compreensão, seu filho gay pro mundo.


Escrito por Tiago às 16h31


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